A cidade que se vê


A Ítalo Calvino

Conquista-se Gabriela por terra e ar. Chega-se pelos caminhos que sabemos tão bem e fingimos esquecer. A cidade é receptiva, calorosa e cuida bem dos forasteiros, mesmo impondo cuidadosamente algumas adversidades. É o feitiço de se proteger. Mesmo assim, são amplos os caminhos e fácil a jornada. Ela esconde sob tetos de viadutos e edifícios muitas diferenças, não gosta de se revelar. Quem chega percebe amiúde os desvelos, demorando naqueles cantos incontáveis. Gabriela grita enquanto cochicha aos ouvidos de quem acena. Busca quem se abstém.

A despeito de bela e plana, é também sinuosa, labirintos giram e voltam ao mesmo lugar. Ruas trocam-se, escondem o destino e reaparecem matreiras. Brinca com os mistérios que abriga, pede cumplicidade com suas manias e precauções. Cuida-se e cuida de todos, sem conseguir ou ser percebida. Sabe-se contada enquanto se perde maneando vergonhas.

Recolhe todos em seus passeios largos. Abriga homens e mulheres em diferentes línguas e sotaques. Fala de todas as artes e ofícios. Gabriela não se contém, tudo vê e é sempre vista. Contempla-se. Vê-se ao infinito, obsessivamente, até tornar-se apenas o cenário de si mesma. A cidade, que corre por todas as épocas e evoca todos os instantes, confunde-se com sua própria sensação. Foge de si para reencontrar-se vasta.

Milhões de mesmas cidades avançam em movimentos excêntricos e contínuos. Como um contador de histórias cego, gera, a cada sandice, outra dimensão em viés, e repete a mesma armadilha, até os portões de entrada. Gabriela ilude sentidos, confunde pressas, mistura destinos por absoluta falta de opção. Aos caprichos apenas.

A cidade é esta, onde estão todos e é aquela, onde são todos imagens de imagens. O encanto faz Gabriela multiplicar-se. Cada desvario gera outra, eterna, que existe na percepção continua de si mesma. Cada momento inexistido é guardado para sempre. A história não se multiplica em opções, mas em infinitas indecisões, que levam as emoções de todos os caminhos não escolhidos. Ela mente tantas vezes quantas forem as possibilidades e, mesmo assim, mantém uma única realidade, capaz de recontar as trapaças simultaneamente. Guarda cada instância de todos os passados e, no mesmo ritmo, vigia o futuro a se tornar presente. Tem as dimensões a seus pés. Gabriela é terna porque guarda o tempo, guarda a verdade e a mentira.

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