Angústias travessas


Ela me visita. Presa na pressa, cultivada na dor, misturada sem jeito, sem forma, sem cor. Entrego-me no dia, meus sonhos na noite. Não revelo o que temos, não nomeio o sentido, receio saber. Ela se enrola comigo, dedilho seu corpo, decoro no escuro. Conheço-a como um vizinho ausente, uma página vazia, um barco sem volta, nunca vi ao sair. Dedico momentos eternos e não sei a quem dei. Medito em tensões fulminantes sem sabê-la acordada, sem saber quando vem. Mora em um abismo de mim, vejo-o infindo, sem pular nem fugir. Quero tê-la de fato, sangrar seu corpo para vê-lo real, transformar a desdita em pedra, em sal. Triturar seus desejos e separá-los dos meus. Poeira soprada, espalhada ao léu. Livrar-me da musa que cantarola cordéis, enrola o fio da vida como não sei, ela quer. Com zigue-zagues matreiros enreda o sossego, desconta carências, assusta o prazer.

Quis conhecê-la ao avesso. Saber quem me vive, quem guarda as emoções insentidas que desconheço na luz, torturam no breu. Quem é o capataz da ilusão, desta senzala vazia onde me tem sem grilhão? Visitar seus olhos por trás, ver-me dela, trêmula. Agarrar sua mão suada e fugidia, escutar seu coração sem ritmo e cingido de mim. Fui.

Amansei medos de altura, dúvidas de escolhas, descaminhos no escuro. Bati assombrado à sua porta gigante e ninguém atendeu. Entrei sorrateiro, corredores estreitos, salas enormes, esparrela atenta. Olhei paredes que me conheciam, janelas iguais enrustiam, espelhos me avessavam. Senti o vestíbulo do inferno, essência da dor, querença infinita, de tudo, de nada, cisma imprecisa da desolação. Um estorvo fluido atravessa e volta, e tudo outra vez. Em única lágrima chorei as tristuras de todos os tempos. Botei pé no mundo sem querer encontrá-la, tão ardente, furtiva, traiçoeira pensei. Deparei com o ardil da loucura, ilusão de vitória nesta volta sem fim, procurar quem me procura, mas finge abstrata quando perto de mim.

Ela me tem. É a dona que guarda em mim as vontades contidas, escondidas no corpo. Eu nela, as desculpas estagnadas, o estardalhaço preso da entrega, o desespero de perder o não tido. Ainda me enrosco em seu corpo nu, conta os segredos de não tê-la, fala do gozo tolhido, estancado por dentro, escondido entre carnes, perenes de quase. Não arreganho suas pernas, seus seios nunca vi, sua língua pouco entendi. A boca só diz baixinho, quando quero escutar, que guardo em semente o pedaço de culpa que minto evitar.

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