Dança inerte


Uma mulher desmorre. Ainda não. A boneca descolorida imita vivência, desveste sua imobilidade e esboça maneios. Leves movimentos de fragilidades, de panos e arames. Rude em ser, delineia emoções contidas em gestos minúsculos. Acende vestes de vida e desmonta outra vez. Uma longa linha de tentar se tentar, de desanimar os limites que ensaiam velar a sedução consequente e guardam, intocadas, articulações revestidas da malquerença de livrar. Insiste suspensa por fios de enganar pessoas. Não a si. Machucada das quedas do pavio de parodiar, permanece enrustida nos colos que a fazem mexer sem pensar, jogam-na em voos de prever ventos na cara de sentir. Ainda não.

O crescer de boneca é um avelhar imutável. Dissimula a capricho de amar e se prenda com mazelas de dores, escolha intragável de existir e dançar. Resvala as pontas no linóleo namorado, um mero arrastar de pernas ociosas. Aqui e ali já se notam escolhas, tentação de avivar, tomar momentos inertes e inventar o balanço de querer animar. O som abusa da melodia e se enrola no talhe. Dançar é entregar o corpo ao ouvido. Desatada de fios e arames drapeja na liberdade de sintonias e emoções de vagar. Corre pelo palco vazio, respira a música ouvida. O anelo cauteloso já não evita o barulho estridente de pernas no ar, de giros falantes e pontas de dor. Salta de braços em braços, rígida, meiga, graciosa no perdido do olhar, cálida da viveza de entoar. Baila só. Vive a mulher.

A bailarina discromática disfarça o mundo amarelo com belezas de tons em piruetas, com simplicidade de colorir movimentos. O casal de manias perfeitas joga o corpo no ar, a tem de volta no enredo intrêmulo e desequilibrado da pose descabida, estátuas de gente, atraentes em par. Ainda não. Flana acima do tom, gira como mentira teimosa ostentando a arte para se revoltar. Fica quando não pode ficar. Exausta de reminiscências iminentes de não dançar. Ela já é a fantasia pálida das sensações dinâmicas que espera embalar, transformar em coreografia suave que a música entretém e espalha. A face alegre mente quando esconde a tristeza embaixo da máscara de pó. O corpo xinga quando extingue a beleza de tanto bailar. O pano fecha quando cessa a energia de aplausos no ar. Tudo é breu, ou nada foi. Verga-se a bailarina em reverência à vida. Desmorre a boneca.

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