Harmônica


Dali, sentado de modo conter as pernas no espaço requerido, podia vê-la vez por outra. O palco, com Ópera de Puccini, dividia olhares, não deviam. Ela, a seu modo, agitava-se sem se fazer notada, enquanto nota era o que ela própria, em meio a tantas partituras embaralhadas, buscava ser.

A sensação de provocar vibrações em momentos, intensidades e frequências exatas não se confunde com o som. A essência do que chega aos ouvidos começa com vontades, expiram do íntimo. O desejo de inundar o espaço só é contido por mandos e desmandos do diafragma e por dedos, ora permitem, ora impedem. Assim fazendo, formam estéticas do acostumado, reprimem a expressão da série harmônica completa, perfeita, ao mesmo tempo, apenas imaginária, sem nenhum sentido estético conhecido.

Sem reparar, o espaço a separá-la da orquestra quebra emoções despertencidas, carece perceber que ela, sim, pertence ao sentido. Perde-se em castigos, executa com pressa e minúcia. Mentira. A perfeição do que é, ou tenta, jamais trará a sensação descontada em mistérios, mesmo fazendo parte, inerte ao sentido, ágil em cenários.

Da mesma cadeira, a drapejar inquieto por luzes, cores e escuros, imagino como seria ela, parte do mesmo som atento. Quase a vejo em imagens rápidas e desconexas, aflita com um ataque atrasado, uma amplitude imperceptivelmente alterada, uma emoção perdida no percurso. Segundos depois já conversa com os técnicos de som, iluminação, com tudo a distrair. Não são os movimentos contínuos, como o som do poema que queria ser. Aparece e desaparece com pressa, ilumina-se e foge, negando a si própria a sonoridade intensa e amante. A melodia escondida esqueceu. Cria o já foi, quando jamais deixou de ser.

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