Manual de paciências


Daqui, magicando lembranças, tento refazer dias a tento da demora, da indecisão a balançar cabeças mirando detalhes descontente. Atento ao desgosto de perdas, as que poderiam ter tido, nem sei. Trato de vidas em comunhão de fantasias, a mim não basta uma, rejeito a dimensão, ajeito-me em divagações, conversam diabruras de outros rumos. Ali registrou-se a ausência, mas não. Doença de querer de um tudo, de não caber em uma vida e dar trela às pegadas inexistentes do que seriam outros caminhos, indecisões infindas e lamentos da escolha una. Desconverso com as lamúrias do desgosto, servem-me tentações de desgarantidas entregas. Sei muito bem desse engano, tramoia comigo desde o berço de grades, entrava por cima, enchia-me de asas de prisão travestidas de mundo. Cabeça de mundos, olhos de tudo. Quando a boca acordou já sabia querer. Aí se espalhou a balbúrdia, ao entrevero comigo se consagraram nomes, a desavença com o presente pulou olhares para um destino vago, lá fiquei em diálogos de passados e amanhãs.

O José tem esse manual de paciências à cabeceira, acalma-lhe qualquer uso do dia, como se aquele, e todos, transbordassem de coerências e querenças nem sabidas, mas já acariciaras com os mesmos dedos de folhear. Vive de suspiros. Tudo a ele parece uma chegada esperadíssima, no tempo que não importa, pois, ao José, um pouco tarde, ou um pouco cedo, não lhe transformam caricaturas. Vale-se da preferência a lhe tombar pelo colo carinhoso, afaga sem temer o distúrbio das desescolhas, esconde os desejos em lugares tão óbvios que de achá-los ninguém se cansou, ou não os tem, e de aceitá-los também ele descansou.

Muita vez imagino o manual que me emprestaria o José, falta não lhe faria, já se acomodou entre folhas. Eu também em tolerâncias, redimido dos tempos, vivendo a dias, cortejando minúcias, o encanto do sossego. Manearia outros enredos à mercê do escolhido, saberia ostentar a beleza da humildade do recolhido. A ideia esconde receios e cobro o compêndio nas mesmas agruras, na prisão dos princípios, e o José enfadado de mim, das desculpas do desatino em épocas arredias, do complemento desordenado em folhas que acharei brancas, tentarei escrever. Não sei ler esse livro de amansar aflições. Meto-me a costurar absurdos, pulariam as páginas sem os olhos de ler conselhos. Ainda não. Em mais uma paciência, levaria, o José, a partitura. E o sorriso de me entender brotaria apenas em um leve mistério de sua face.

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