Mulher fumaça


Sempre a imagem a traçar dúvidas. A outra é mais simples, que lado escolher ao deixar o vagão. Tantas plataformas, escadas e placas. Acabo tomando qualquer caminho e sempre chego a lugares construídos de tantos desencontros. Um trem a fugir em curvas, a cismar as imagens do descabido e cantar tramoias em comboio. Encanta os dormentes e contempla destinos de chegar. Maria Fumaça. Sentidos misturam muitas histórias, ou mentiras desconhecidas. Que Maria seria dona de tantas fumaças? Nunca entendi esses mistérios de mulher em veredas. Fumaça sim. Mas, até onde moro, nunca existiu Maria alguma com essas manias.

Fui, mesmo sem entender, passageiro daquela mulher. Tantos anos de idas e vindas, tantos lugares inusitados, acabei aprendendo outros olhares sobre a mesma paisagem deixada, outras formas de viajar pelas mesmas estações. O dia de vê-la sempre foi uma repetição intensa de surpresas que mudavam o mesmo caminho.

Uma mala sempre pronta no canto do quarto me contava a renúncia do esquecimento, de cidade em cidade, estação em estação, estaria mudando de rota sempre no mesmo trilho. O trilho dela, com fumaças que ainda não explico e apitos a inflamar os desejos.

A mulher Maria já se foi, não há mais fumaça. A mala continua ali. No mesmo canto de chão, intocada, inquieta, ociosa. Como um objeto animado, um cão dormindo a espera do chamado. Talvez em última e imaginária viagem eu a embarcasse sozinha, sem rumo, sem planos, e ela então pudesse chegar onde nunca consegui.

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