O mundo não ri


Então descobri que o palhaço não ri. Semeia alegrias, arranca sorrisos e ele mesmo não viu. Depois tive a impressão da felicidade escondida, zanzando por ruelas tortas, batendo nas portas trancadas dos tempos. Imaginei o palhaço dono do circo. Queria ser, eu mesmo, o trapezista, resgatando preciso a mulher esquecida no ar. O domador, de cadeira e chicote, boicotando a fera que acariciaria de dó. O motociclista no globo, nunca morreu, de cabeça para baixo, de lado, parado heroico de tantas tramoias. E o palhaço o chefe de todos, de todo folguedo, de toda tranqueira, de tantas magias.

Descobri o buraco na lona. Quis ver o dono do circo. Esgueirei-me por cordas e panos. Me escondi de guardas e tantos e cheguei onde o sorriso escondia. Achei de tocar seu sapato comprido, vestir suas calças largas, usar seu chapéu colorido. Com muita sorte, fazer meu nariz vermelho e a boca grande que só ri. Vi um homem magrelo com fantasia de dono. Sua cara escorria de tons misturados, não enchia a roupa de cores, folgava o sapato de ponta. Roubaram o palhaço. Sumiram a corneta, os risos de conta, o ladrão de mulher.

Ainda procuro por ele de cantos em cantos, em cada sofrimento acolhido, em cada choro perdido, deslembrado e sem fim. O palhaço escondido. Na dor que atormenta, na fome de todos, no sono acordado. Tantos nas ruas se arrastam sem rosto, dessabidos de seres, baralhados com esgoto. O palhaço escondido. A criança sem colo, pequeníssima corre, de monstros, de garras, confundem e morre. O pai de angústias, com medos perenes, miram nas costas, covardes, cruéis. O palhaço escondido.

Imaginei de volta para as lonas, para dono de circo, cores na cara desmisturam alegrias. Voz de corneta, quedas de bunda, interrogação no chapéu, e eu na plateia. Gargalhadas rebeldes, dor de barriga, gozo de não acabar. O palhaço quem é?

Vi as tristezas travessas tomando as festas que criava só minhas. Sofro com a multidão de felizes, esquecem e carecem de prantos e horrores. Procuro o palhaço acordado, brincando em rodas de poucos amores, mendigando sorrisos sem tintas de graça. Escuto, em grito afogado, que a felicidade evidente não passa da tristeza de todos, fantasiada de nome, procurada por tantos, olhares de circo preferem não ver.

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