Todo dia é nenhum


Sempre a última vez dedicada às dores, sempre às últimas e tantas. Cada uma das casas prendava com um pacote, não sem antes respirar uma sensação intrometida e leve que enchia de simplicidade o resumo daquele preciso dia. Alagava todas as horas com o ar fresco da novidade, então bajulava as pedras, as beiras de caminho tratava como se alisasse um veludo colorido, os pequenos tropeços cultivava como se fosse viva a rua, desculpava-se. O olhar corria solto à frente, a parecer que se entretinha com o futuro, saudava apenas com a graça as faces alegres nas molduras de janelas. Ofereço o fruto de minhas andanças porque assim sou nada além do passeio, passo apenas, dizia assim.

O andarilho sorria até trombar com a noite, não que tivesse birra com o escuro, ou lhe fizessem cócegas as horas, não, ele simplesmente seguia um trecho monótono, dava voz ao cansaço, da boca para dentro nem contava o entregado. Sumia no breu das curvas, no amanhecer dos sonhos, não sei se dormia nos pensamentos, aconchegado em cama macia, gostado e nutrido, ou se qualquer lugar era seu reino e se ocupava apenas de ter fechados os olhos. De dormido não passava, esquecia então aquele ontem, como uma chuva lenta as horas lavavam lembranças. Todo seu dia era o último e o primeiro. A desmemória inundava de paisagens inéditas seu olhar longo, sim, nascia nos esquecimentos e fugia a mundo, confundia pressas até encontrar o reflexo, minúscula a expressão de afeto consigo quando recortava as imagens e, enfim, pregava em seus olhos. Sim, era longo o olhar.

De um jardim sem desenho, mordendo a repetição, embrulho razões a descobrir a graça, o cortejo suave, irreverente a ponto de paralisar um sorriso. De humores não entendo, nunca tive alegrias que cobrissem uma distância maior que o próximo pensamento, como se me fosse impedida a repetição de doçuras. Que esperança. Como vai, Seu José, veja aqui meu embrulho, prova o café? O Senhor está no céu, antes de estender-me afagos na forma de voz, pura carícia de voz, emoldurada da face singela de quem tudo merece. Até algum dia desconhecia seu hábito de esquecer, razão da mesma resposta, eu desperdiçando iguais perguntas, depois cochilei no costume e sumiu o encanto, varrido a miúdos.

Seu José espalhou o descuido, a leveza fez dele um pássaro livre, cantava acima do ordinário e cortejava distante os minutos da remessa, ele bajulado de angústias. Distraiu-se nesse prumo bailante, diluindo o cenário, tela de cores macias, até transformar-se em pura natureza, com seus próprios movimentos, ligados pelo vento, ou outra qualquer cola. No dia que foi verdadeiro o último já ninguém se lembrava. No seguinte, restou uma sensação recatada, como uma grama alta, uma flor caída, um gato em mio baixo, a não saber se foi a entrega.

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