• Marcelo Pimenta

Entre grãos



Os dedos, o do meio de cara áspera, meio externo da cara, não de escorregar por aquele tabuleiro, não fazia conta a lida, eram os pensamentos, esses sim a fugir, a enganar os outros supérfluos, até perder os lados, e vai um grão bom para o lado errado, conta errado os lugares para onde foge seu gesto, o pensamento grudado no objeto desfocado a sua frente, pegajoso de rondas com desfecho quase sempre triste, quase desfecho. Tinha essa parte do dia trancada, na porta da cozinha, para fora, trancada longe, o terreiro era depois salpicado com grãos carunchados, e nasceriam as plantas com caruncho, as ideias esburacadas, e ela as deixaria ali, onde as galinhas perseguem vírgulas, naquele jeito galinha de andar com o pescoço, e as ciscariam não fossem tão subjetivas, as ideias, moídas entre grãos, esticadas das lembranças.


O relógio da parede, quase um retângulo em prego frouxo, um trapézio arredondado a disfarçar o pulo, os estilhaços, a corda desvirada, os ponteiros não se ultrapassavam mais. Cada segundo pingando, enquanto o som milimétrico, às vezes puxa, às vezes arrasta, outro pulo, agora fora do tabuleiro, a correria de bicos, vento das asas, a barulheira depois quieta, o relógio em gotas incertas, misturado com o alarido aquoso, a música lamacenta da máquina a coser, tudo lá dentro, lento, os panos cortados a moldes riscados com giz de alfaiate, alfinetes guardados em almofada. A decepção escancarada em saquinhos listados em azul, na cordinha vermelha de fechadura, estrangulando.


A galinha ciscando para trás, à medida que não corre, a gorda, o pescoço sem pena esquece a coreografia, pendurado em sangue, corre pelo terreiro, os olhos no chão, a cabeça para baixo por um fio de quem acerta a tesoura, não a faca. Os grãos continuam vagando em gemidos e saltos, o dedo enferrujado, ocre. Se perguntar nem sabe o lado, elétricos, mansos, elétricos. As ideias enrolando lembranças, costurando um passado épico de onde veio nada, os segundos pingando, a agulha melando o pano, até quebrar, até quebrar.


No remate do canteiro a bolinha de massa no copo d’água a assoviar densidade, e flutua, vai tudo para o forno, lá de fora de olho no cheiro, não de queimado, o biscoito nascendo no saquinho de listas azuis, eu queria Lanche Mirabel, a cordinha vermelha, só depois de apagado o terreiro, de silenciada a agulha melosa, vi que não era só pano, mas era só plástico o Mirabel. E podia encher as listas de grãos se faria o mesmo sentido, carregar meus carinhos, esqueci e pingam do relógio, que para mais não volta, então volto mecânica de onde nunca saí, os dedos elétricos, os modos de reparar alguns soluços estragados, joga para o lado.

[Foto: Kika Martins Ribeiro]

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