Gin tônica


[improviso iv]


O dinheiro em cima do balcão era para pagar a puta, nota-se que não levou, poderia ser o padeiro também, ou a dose de bourbon, hoje saí cedo, fiquei lendo Cortazar até tarde, como não conseguia dormir sai para o bar, não é meu costume acordar tão cedo, nem é costume do carteiro passar, mas ela não veio sozinha, marcou comigo, sem as cartas, não é fácil dormir sozinho quando não se tem um assunto novo, mas não, da primeira vez foi dançando no bar, My Funny Valentine não era puta, dançarina, eu brincava assim quando ela passou a dormir uns dias comigo, meses, pelo menos acordar, o café faço para um, já é para dois, chamava-se Lara, chegaram e ela me disse ter uma filha, não posso esquecer de passar na loja de celulares, ela não vai me enviar mais, putas mudam de nome, mudam e não enviam cartas, meu endereço é o mesmo, mesma porta e quando entrei a vi na cama, e não estava só, o sexo era alto, metálico, fiquei ouvindo o último toque, o beijo infinito não sabia parar, pedi uma tônica e fiquei vendo-a dançar, quase nua, mas nunca, foi daqui mesmo e a vi partindo, não me explicou muita coisa, não tinha muita coisa, até hoje a vejo, quando ela passou perto, os seios cobertos por uma seda incerta, longa, os bicos marcados, disse seu nome verdadeiro, menos o verdadeiro, partindo, ainda espero uma carta de explicações, a vi saindo por aquela porta, as portas ficam pequenas com os olhos, e demoro muito a entender, até o garçom já sabe meu endereço, muitas vezes me botam no táxi, mas volto, não gosto de ir para casa sozinho e ficamos sempre na expectativa, cheios de lágrimas, ou de espanto, e nunca voltam ao normal, os olhos, não esvaziam e por isso transbordam, cada vez mais rápido, cada vez mais fundo, veja, a música, o livro do Cortazar na cabeceira, não acabam os assuntos, o acorde dominante, mas acaba no meio, ela termina quando eu ia te dizer alguma coisa, eu te amo, eu acho, não termina, você parou de dançar, depois de 5 doses de bourbon já as putas são amadas, são sempre amadas, fui eu, se eu fui e esqueci de voltar, Lara, não me deixe outra vez, eu compro o celular, eu faço café todas as manhãs, tá aqui, eu esqueço o endereço, para voltar para casa e te ver, se você ficou, eu voltei antes e a festa não acabava para você, despedida esticada, o gin tônica, você já abraçava a puta, fica com o troco, me deito com você na cama nossa, e se você tiver ido embora, se não alucinei com a música, não termina, sexo desabado antes do gozo, e bebi demais esperando um fim interminável, a música, você se cansou e me expulsou, se expulsou da minha cama e agora nem celular, precisa do número, me disse o carteiro, para achá-la, acabou e apenas paguei o bourbon e sai, antes de terminar, o acorde infinitamente querendo chegar, me dê uma tônica, por favor, e chame um táxi para me levar, mas eu não recebi cartas, o dinheiro era para, não me lembro da puta, talvez Lara, o sexo sentados nessa cama, ela se joga pra trás e a vejo esticada, sem fim, a porta bate, o croissant, os olhos não esquecem, ela finalmente quase nua, o sexo leve se parece uma melodia, deito-a e dedilho seu corpo, sopro em várias alturas e ela arrepia, se contorce, o som agudo rompe o ar, goza em diversas alturas, pausa e avança, o líquido escorre morno, a tônica sem gelo, quando abri a porta te vi na minha cama, não alucinei tanto, não me vi mais na mesma cama, não paguei a puta, o Cortazar também não termina, o trompete me interrompe, mas para, sempre na inspiração, volta em frases tensas, temas desconexos, como um improviso incessante, me sinto bêbado, como se estivesse bebendo palavras caóticas e algum garçom

[Se você leu o texto sequencialmente poderá agora ler separadamente a parte em fonte normal e depois a parte em itálico, como se fossem outros dois textos]

[Na foto Miles Davis e John Coltrane – harmonia de trompete e saxofone]

47 visualizações