• Marcelo Pimenta

Implicâncias



Muita vez sentia antipatia crua pelo outro, qualquer, qualquer o ensejo ou brecha. Notou também, na mesma toada aumentava o desprezo, é, parece fornida a palavra, desprezo, mas era justo isso. Não de si para o outro, mas o contrário. De alguma forma, das sabidas e das nem tanto, foi manipulando desejos e deu nisto. Não é fácil admitir a carência pelo rechaço, você pode imaginar mazelas, às pencas até, ele ainda nada sabia, nojo de si diante do encontro. Raiva não tinha, era mesmo a querença minguando, gota a gota acumulava o prazer intangível de ser despercebido, de desperceber. Imaginava-se uma sombra divagante, apenas, como se nunca chegasse para a luz o anteparo, sem luz, um escuro pleno de dar ausência ao existir.


Aquela, a balançar saia à frente, no rumo mesmo da vista, sentiu o esboço deste buraco e ia cada vez mais sem terra. Ressabiou. Deu-lhe tempos e tempos a ver se amansava o emaranhado daquele novelo, se voltava a ternura. Que nada, rodou olhares para dentro e fora, brigou com pensamentos, conversou com o desdém até perceber-se metida dentro. Esticava o grito para longe, para os lados todos, a ver se encontrava ouvidos, dele, ou de quem houvesse os raciocínios comprado. Trombou tal dia com a sensação, esquisita aos olhos antigos, pairava nele qualquer distração com o medo, a implicância, aos bem poucos, travestiu-se de outra ternura, uma solitária, tramava nada com a vida. De forma desconhecida, insistia-lhe um ar mais livre. Respirou anos de atraso e quis deixá-lo. E mesmo deixou.


Ele deu trela e destruiu encantos, aos muitos bocados, distratou as ideias de rondar amizades, sem dar entendimento a ninguém, foi mesmo desmerecendo, a tempo miúdo. Diz-se da tenência por essa desavença com as normas ser fritura em chama fraca, nem do barulho faz fé. Temeu espremido, não se deve esconder, se o carinho desqueria. Chorou invertido pelo recesso do amor, chorou mesmo assim pelo seu próprio infortúnio de ser amado. Lágrimas secas, coração encabulado de não querer gostar sem aparência. Não queria. E se por acaso tivessem todos os amores caídos de mim, escorridos por meu e seu desinteresse, que frustração alagaria todos os ausentes neste despejo? Pátio das algazarras em repetições sem fim? Seria o único orgasmo, enfim? Era assim que indagava para dentro. Pasmo se contava de volta. Ela me deixou, queria ouvir. Te recuso, canalha.


Ser desamado é dissolver-se no mundo, o simples desprezo de não carregar o estorvo inútil, a frustração alheia. Era assim que queria pensar.

[Foto: Kika Martins Ribeiro]

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