• Marcelo Pimenta

Lírios demais



Flores brancas são sempre macias, como as folhas vazias. Se eu morresse hoje, dormindo, não te procuraria embaixo da cama. Sempre senti o peso das ripas mofadas, sim, já estive lá outras vezes, me escondi muito, como se morasse aquele teto raso, o ar calado, a vontade de levantar já tolhida, só rastejei, quando saí foi com medo. Mas eu te procuraria achatada comigo, partida, espalhada, cacos no chão quando espremido pelo estrado só conseguisse mexer os dedos, meus braços poderiam girar semicírculos, eu cravaria unhas nas juntas dos tacos, desesperado mesmo, e você nunca estaria lá, e a pergunta sem eco - por que te procuro.


Pulmão esmagado, respiração pequena, é, sempre tive pequena, nunca precisei de mais para ir a nenhum lugar, andei olhando um pé torto pisando minhas pegadas, em círculo, girei esmagado, como você apaixonada pelo chão, talvez ouvisse o caminhar de outro, o andar de baixo, e eu gritasse afônico, com pouco ar, abusando seu peito, o leite sem dívida, sou eu abafado aqui e você me escarafunchando, não, não me procure tanto como eu, cansa, em semicírculos, semi-vida, sempre sem. Talvez eu morra hoje a noite e de nada me servirá a vida me separar de você, estamos mortos desde que fomos, somos sempre vida nesse espaço apagado, semi-flores, os lírios.

Não me procure embaixo de nada, você já deve ter notado, se até eu, me ache vivo como me pariu, cheio de esperança, livre, meu sorriso cheio, meus olhos brilhando, eu esganando o céu em busca de mais, campainha de cigarra, chuva corrida, eu aliviado, aliciado por uma euforia longa, eu poria, te poria comigo no caixão, nós dois, olhando a tampa que sempre nos pareceu o telhado de cama, onde você me amamentou, onde você me cobriu, onde me escondi desesperado, até agora quando nos vejo juntos, me procure, talvez você queira se vingar de meu desdém à vida, seu presente amarrotado em meu lixo. É fácil me encontrar morto, não te vejo, nem te achei. Os lírios ficam bem embaixo da cama, deixei as folhas também, talvez alguém leia.

Hoje fugi nu, preferi escorrer pela casa vazia, acordei noite, morri vivo, nunca tive esta liberdade de chorar nu, abracei as paredes, alisei as portas como se a convencê-las, foi pior, nunca tinha me chorado, melhor tivesse me engolido o colchão, me sufocado de memórias até implodir, ninguém iria notar, teve um enfarto, coitado. Procurei uma manga de camisa que me enxugasse a cara, me restaram apenas os braços em pele, a pele chora e eu nem sabia, molharam ainda mais meus olhos. Quis pegar algum carinho, quis me entender com o passado, saber com que olhos você me acharia, quais teriam sido suas armadilhas a testar minha descrença, porque você deixou as lembranças soltas? O que você espera que eu sinta ao ver seus objetos desnutridos? Jogue fora a despertar sua essência? Acaricie a despertar sua ausência? O que você me espera? Você não me falou, no dia que morremos você se esqueceu de me mostrar, só vi você colhendo um ar amassado, nós dois embaixo da cama, seu coração cochichando, e os lírios.


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