Nada há



Há também mais pardais, tramam uma cerca abstrata, a estrada um dia marcada por rodas de madeira, por passos, hoje se guia pelos gorjeios esquecidos de melodia. Imagine você uma volta por mapas de lembranças, nós dois a decifrar encostas, curvas desaparecidas, rios finos, nós dois de bússola, aquela mesma nos perdeu, ou nos disse o evidente. Eu mesmo não iria, minha porta trancada a tudo, você pensando aqui dos meus pensamentos, não muda mesmo, vai uma, outra e ele sempre em conchavos com a única sombra. E eu perguntando para o teto, como morariam minhas sombras em seus olhos. Ainda a chuva a falar de mim, pingos de cochichos entrecortados, dispersos, são tapas minúsculos a me acordar antes de me devorar a paisagem molhada, não adianta, ela te fala também, bebo sua cena, esquece a chuva, não te vejo, há muito.


Agrada-me esta imaginação quase dormida, quase sonho acordado, me atrevo nos acontecidos, ou nos acontecer. Controlo-me sem me explicar, sem atinar caminhos, como se do nada pudesse inventar uma alegria de me engolir, uma emoção vinda das dores que te fariam se importar comigo. Nunca dei entendimentos a ninguém sobre este meu atalho à felicidade, de tão gritante fui eu a me achar mundano, foram todas a me ver lunático. Aposto que foi você, qualquer uma de vocês, a espalhar esta desforra, não me contar meu engodo me torturou, enganou-me a busca sincera por ilusões, minhas, vocês sabiam da curva, eu morreria em alguma curva, escorregado nas mentiras. Vocês podiam ter me assustado. Não vi e de novo chorei, o mesmo enredo, a vez da desimportância.


Eu receberia uma carta, fosse a vergonha de me contarem os bocejos de impaciência, as olhadelas ao chão a procurar o ninho de se esconderem do vexame, a vontade de me desconhecer, como se o passado fosse a própria carta, apagada e reescrita, meu nome trocado. Receberia anônima, destinatário desconhecido. Talvez me entregasse às tertúlias com meus desejos esquisitos, imaginasse alguém tratando desvelos, rabiscando frases e não diria por pura timidez, você me querendo nos arroubos de toques, de lábios, de gargantas estridentes, eu me achando seu herói de qualquer aventura, ansioso por te ver grudada em meu dia, surrada de prazeres em minha cama. Te receberia neste bilhete, papel nunca escrito e eu em novos delírios, de te amar, de me exibir, as mãos se tocam em palmas, sou eu a correr, festejo, a responder a carta, te espero, te espero. Eu nos livros, folheando minhas sombras, a chuva desta vez me cortando, o vento mastigando minha face dura, eu e você, você que não sei se existe aí fora, eu perturbando meus escuros, desfilando com minha fantasia preferida.

[Foto: Kika Martins Ribeiro]

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