Marcelo Pimenta é escritor de territórios instáveis, zonas onde memória, linguagem e identidade deixam de operar como certezas e passam a se comportar como matéria em deslocamento. Com formação ampla em Tecnologia da Informação, trouxe para a literatura não o léxico técnico, mas uma consciência estrutural aguda: em sua escrita, a arquitetura do texto não organiza o mundo, cria tensões, desalinhos, campos de fratura onde o sentido oscila e se recompõe.
Autor dos romances As coisas sem nome e Sapatos de viver a morte, e dos livros de textos livres Cilada dos sentidos e Repito a noite, desenvolve uma obra marcada pela experimentação formal e por uma pulsação narrativa contínua. Seus textos não avançam por enredo, mas por deslocamento de percepção: investigam a instabilidade do eu, a erosão do tempo, a precariedade da lembrança e os mecanismos íntimos da invenção.
Há, em sua literatura, uma recusa persistente da verdade como bloco sólido. Toda certeza surge atravessada por ruído; toda memória traz consigo a sombra de ter sido fabricada; toda voz narrativa carrega a suspeita de ser apenas versão. A escrita torna-se, assim, um campo de escavação, não para encontrar fatos, mas para expor as camadas onde fato e ficção deixam de ser distinguíveis.
Suas obras constroem narradores que não dominam o mundo que contam. Pelo contrário: são atravessados por ele, falham em organizá-lo, e é precisamente nessa falha que a narrativa encontra potência. O texto passa a existir como organismo vivo, mutável, em diálogo constante com o leitor, não para oferecer respostas, mas para produzir estados de percepção.
Nascido em Ouro Preto, Minas Gerais, carrega na linguagem uma geologia própria: camadas, veios, erosões, brilhos súbitos sob a superfície opaca. Sua literatura parece brotar dessa mineralidade, densa, silenciosa, atravessada por fendas onde o tempo se deposita e a voz, ao tentar se fixar, inevitavelmente se transforma.



