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O processo

A linguagem
Escrever começa na obsessão pela palavra única , aquela que parece conter o mundo inteiro e, ainda assim, chega marcada pela insuficiência. A frase perfeita é sempre uma aproximação, nunca um alcance. Há nela uma frustração constitutiva: não diz o todo, não encerra o eu, não alcança o você. A linguagem é tentativa e perda ao mesmo tempo, quanto mais precisa, mais revela o que ficou de fora. Escrevo nesse intervalo entre o que a palavra toca e o que ela inevitavelmente abandona.

A estrutura
Se a linguagem é busca, a estrutura é o caminho torto que a conduz. Não organiza, tensiona. Traça percursos que se fazem e se desfazem, retira o leitor do conforto linear e o conduz a um território próprio da obra, onde as palavras se concluem não sozinhas, mas no encontro com as sensações de quem lê. A estrutura também faz o movimento inverso: volta, revê, corrói o que parecia estável. Até o fim, e às vezes além dele, o caminho não se fecha. Há obras em que ele sequer existe: é apenas travessia.

O tempo
Lidar com o tempo em prosa ou verso é, no limite, dissolvê-lo. A escrita não o acompanha, o interrompe, o dobra, o suspende. Narrar é saber o tempo, mas jamais sê-lo. Cada frase cria um intervalo onde passado, presente e invenção deixam de obedecer à cronologia e passam a coexistir. Escrever é abrir fissuras no fluxo contínuo, e habitar essas fissuras como se fossem morada.

A ideia
É estranho admitir: a ideia é a parte que menos importa. Qualquer ideia, isolada, é transitória, evapora assim que entra no processo. Não resiste ao atrito da linguagem, nem às inflexões da estrutura, nem às distorções do tempo. Ela é absorvida, dissolvida, reconfigurada. O que permanece não é o conceito inicial, mas as sensações que se formam ao redor dele. A escrita não preserva ideias, transforma-as em experiência.

O leitor
No início e no fim de tudo está o leitor. É nele que busco as emoções primeiras, aquelas que ainda não têm nome, torno-as minhas durante a escrita e as devolvo atravessadas por mim. O texto só se completa nesse trânsito: o que nasce de um retorna ao outro transformado. Escrever é esse circuito vivo, onde o que é meu passa a ser seu, e o que é seu, silenciosamente, passa a me habitar.

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