Lascas descascadas



Te rasgo até seduzir de novo, sexo reparado. Raspo o tempo, cada segundo cai a seus pés e você finge que não repara, não me diz. Para você decepei tantas rimas, mexi nas horas mais fúteis tentando tirar noções que não entendo mais, mesmo assim você, assim como é, eu tinha esquecido. O tempo não cola, não se rejuntam as lascas rejeitadas, foi a espera, apara e não cola de volta, as rimas decepadas, eu lascada, também perdi um pedaço e não foi medido, para voltar, apenas curtir a apara, são raspas, elas caem em pó, algumas o vento mesmo leva, sempre venta, as que ficam tento juntar em montinho, molho a ponta do dedo na boca, mas é muito pouco, fina, uma cinza, o tempo é cinzento assim, quando olho pela janela escuto o barulho distante do silêncio, antes era grito e não cabia em minhas tristezas, são muito fechadas as tristezas, não admitem erros, qualquer lamúria e lá estão, prontas para nos mostrar a porta da rua, mas não vamos, você sabe, as raspas do tempo têm nome, mesmo quando vão em pó as penas, mesmo esquecidas nas rimas, miseráveis, era para te seduzir, mas agora nem quero, podia te ver nua, uma foto, um vídeo sedutor, eu nem iria te encontrar nessas brechas de tempo, buracos de minhoca, pode correr múltiplo, paralelo, já conversamos e você desentendeu, nem sei mais significados, eu rasgo você, como um caderno com pautas cinzentas, mais claras mesmo, era tudo mais claro quando eu fingia, quando minha obsessão me entregava a manivela dos minutos, talvez quando raspe o tempo queira mesmo te tirar do passado, desmanivelar, eu nem achei que te veria outra vez, sassaricando naquele limite minúsculo, quando ainda não aconteceu mas vai, e sabemos, é quando a decisão some, você ainda espera o nome das raspas, o drible não é rápido bastante para iludir o futuro. Não volte. Não te reparo, suas lascas fiquem sujando aqueles dias todos que não existiram, descascados da linha dos eventos, nem venta mais, nem vou te comer. Você parece um papagaio.

25 visualizações