Repito a noite



Podia escrever toda a noite e mal não faria à caligrafia, nem a mim faria. Mas escrever toda a noite é muito escuro, não se equilibram as letras na pauta do escuro, se nem o palmo adiante. O outro lado do dia vivido nos sonos, nos pesadelos, nunca acho que sonho, tenho muita vontade de ser mais alegre, te confesso assim fora de hora. Já o ocaso e se atracam os meliantes, eu vejo a disputa crescendo mansa, são os disfarces, eu conheço o seguido, o gigante único já me bastaria contar. São ladrões, preferem esgueirar-se pelas paredes sorrateiras e manchadas de um negro saltitante, labirinto mofado e mesmo assim me acham, seus dedos viscosos atacam meus sonhos se acho, penso muito nos fantasmas, à noite, você nem imagina. Podia escrever todo o dia e me escondia no claro, me veriam todos a lápis, o dia também se desmancha, se desenha outro, dissimulado, aquecido de sol brinca de miragens enquanto aperto meus olhos, a luz entra mutante à medida dos espasmos, vejo e revejo entre piscadas, queima a retina e alterno na desculpa do foco, de vergonha. Guardo no terror minha única honestidade, quando me indagam invisíveis, me atacam é por dentro do escuro, sou escuro por dentro, por medo, eu me acato em qualquer forma, mas nada mudo, escuto minhas ansiedades, voltam de um futuro noturno, sei que mentem, mas já te falei do medo.


Tomei um papel grande, polido para não perder detalhes, então circulei a noite, um perímetro vazio e impecavelmente distinto, das formas exatas do despercebido. Para compor o bom é saber de sua amplitude, mas não muito, para não seguir demais e encontrar claridades, aí já viu, volta o marasmo hesitante. Nenhum buraco deixei, uma fresta em deslize ou desordem dos olhos, sugerindo que não entrasse ninguém a desenhar meus favores, devo muito, não gosto de conhecê-los por nome, para não serem minhas notas nominadas e assim pudesse comprá-las, você deve me entender, posso perder. Então esbocei o descolorido que via, o chegado do horizonte terrestre, e fui descrevendo enquanto me engolia junto com o circo, como uma onda altíssima antes de chegar. Desviei olhares às fantasias, aos penetras as costas. Primeiro pensei na onda comendo tudo sem tocar, meu círculo desidratado seria um globo da terra e, como nada se cansa no escuro, ali colocaria tudo que viesse à mente noturna. Se eu podia duplicar o dia tornado de sombras, pensei, mas não, a noite circula mais livre, talvez por isso os ladrões, de sono.


Acolhe a tristeza, não sabe? Às vezes, com autorização dela, escolhe também o pânico, a lágrima acuada mora perto do medo. Decidi pela varanda, talhar dali a paisagem, apenas por ver o céu negro, entre um e outro edifício, um reflexo, através de folhas soltas, negro e circulado de estrelas. Me tapeio de propósito, confundo ecos com o barulho macio do infinito, com a distância dos brilhos, passados, mas é apenas para não olhar meus lados, a noite também me confina, me espreme quando não tenho com quem gritar, um murmúrio cala o trissado longo e fino do morcego, nem triste, se me conta as ausências.


É preciso tingir o papel, dentro do círculo colocar cada pedaço pálido, para poder descrever, como um mapa apagado, as estradas diluídas, mas tudo à mão, ao lápis de bordar a noite com dia, e depois rasurar. É claro o medo.

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