O beijo evidente


Que me beijaria como se não houvesse amanhã. Rascunho pensamentos ainda divagantes, fogem em línguas caducas, conheço o recente, transtorno emoções, só. Passou-me o momento de resistir, entrego-me torto. Um sopro ilude a vela e leva a luz, baila sombras, redime o pavio e desvenda o beijo insistente. Distrato sentidos, cega-me o vermelho dos lábios, perambulo ausente. Disparo um ritmo diverso, busco significados aflitos e escondidos, faceiros nos dribles de fuga, volta e quase. Disse que partiria com o dia escondido, correria acima do desentendido e me veria em espanto quando o desdenho voltasse. Não soube agravar o instante e costurar um enredo. Devo ter lamentado a tristeza a escorrer-me pela máscara, despedido de mim.

Destacou-me do tempo, mostrou-me o pranto solitário, chamou de amor. Explicou o vazio depois da lágrima e garantiu que naquele pequeno momento eu me enfeitaria de todos. Respirei multidão enrolado em alívios. Inundou-me um temor a reclamar afetos, cumplicidade com mundo, como se as gotas rolassem por todas as faces, eu em cada uma, encolhido nas mágoas, a rasgar fantasias de alento, a tramar o instante irreverente que não dissiparia sofrências. Levaram-me as bruxarias de bocas, me perdi por aqui, nem perguntei do amanhã adiado.

Morou bem ao lado, distância medida em conversas, ruídos de pouco contar. Atrevo retornos por imaginação generosa, espalho-me outra vez por caminhos cruzados. O corpo animado reencontra o grito, concerta com ruas, com as trilhas de volta. Naquele refúgio mora um homem de meias, guarda-se em malas arrastadas, exibe a pobreza, disfarce da vida contada a noites, fingida a dias, como se não houvesse amanhã. Em tantas diferenças confundo-o comigo. Carrega a liberdade que conquistou à miséria. Espreita ávido, cutuca insistente. É ele o beijo desamanhecido. É sangue o vermelho intenso que me fustigou e espera. Esteve sempre ali, estendendo-me a mão recusada. Não era a pedido da fome, era à oferta do suor em luta, da amostra de vida que enfim perceberia o choro da paixão difusa a nos difamar como iguais. Enxuguei um rosto ferido, posso ter sentido o regalo atrasado.

Voltei ao atalho enfadonho onde espalhei egoísmos e, sem saber, perdi o compartilho de dores, os destroços travesti de alegrias.

Lembro quando me revelou a cidade nua. Foi antes do beijo. Você não caminhou comigo, perdi-me em apuros. Te segui sem meus rumos, sempre farejei seu brilho, entrei nos seus contos, namorei seus encantos. Não te vi mais. Quando a rua me acordou dos lábios teimosos te procurei nas esquinas de morar, seu sorriso livre já dobrava. Só ele, nem ele. Nunca notei os trapos imundos que você travestiu de carinhos para me mostrar a avareza que somos. Me invento em você quando amo o mundo.

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