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Dia tarde demais

separação

|Ficção|


Um dia folheei o mundo e te vi. Vinha com letra inclinada, como se chegasse antes dos pés. Da janela mais colorida, te vi.  Vinha com o coração vadio, como o meu, acostumado a visões. Trazia quase nada, o mundo talhado em espelhos, em reflexos fragmentados, uma caixa dividida em desejos. Esperei a imagem se ver, imaginei páginas diversas, escutei meus barulhos, emendei cada trapo arrastado, um vento louvado me assanhou, levado em fantasias, cravado em miragens, então ela surgiu autêntica, cheia de olhos.


Sentiu como fantasia a areia espalhada, em seu corpo resvalando, olhou, aquele céu cálido, cheio dos mesmos olhares. Vestiu a tal poeira, nua, os grãos minúsculos escondiam a pele, crespida, quando a toquei senti músculos, alisei à altura da cintura, enquanto a olhava calada, agachado a seus pés. Olhava minhas mãos paradas, o desejo tremulava, como a declaração profana e ainda ilhada. Esperei pelos olhos, que piscassem alguma emoção, e fosse uma vontade, de ser tocada, de sentir os minúsculos grãos, a poeira a arejar por sua pele, enquanto minhas mãos se esqueciam, de mim, deslizavam suaves pela face nua, pelos seios, pela barriga, eu paralisado, chamuscado de mim.


Me diverti passando despercebido, e de tanto, floreou-se um tecido suave, os arrepios diante de cada leve toque, o roçar do desencontro que fomos, das malícias do amor. Eu te via esguia, você me comia paralisada, sem mãos, sem palavras, deslizei por seu corpo uma mão seca, te esfarelei pelo chão, te recolhi em cada pedacinho, te refiz o logro meu, seu corpo uma luz em contra, luz, uma sombra inclinada, longa, por um sol caído. Bela a tarde em silhueta, sua, sinto os momentos e falta a história. A sombra morta, foi-se, à medida do poente.


Esteve comigo, sim, caminho tênue, alerquinada, voltou e foi, se houve, suas feições e seu cabelo, se senti, sua pele, a falta. Em algum momento me deixou um sentimento, como se nunca tivesse sido, como se da membrana morna do tempo ele me quisesse ausente, e eu assenti, a cabeça baixa, como quem escuta o amanhecer. Um momento desistido, foi isso. Ludibriou nascer, floriu, o tempo morno, quente, congelou, tudo pareceu tão eterno e nem existiu.


Nas janelas coloridas esqueci a minha, talvez a falta de tinta, ou a falta de coragem, meus dedos sujos pintaram errado, o tempo pequeno, demais, você tonta, você irada, sem volta, e o pensamento infinito preso na vergonha, de me ver, nunca mais te verei, para me despedir, para te ouvir lá de trás, quando éramos mentira.


Me espirro, me corrijo, esmero meu e nada vejo, essa praça vazia, as casas tolas, cheias, me esvazio aqui mesmo, onde posso, onde passo, e foi mesmo como quis, se me esforcei foi por mais, se me cansei foi por ser, mais não, fui assim, ando por ruas de pedras, a mim me olham e escutam, eu me falho e teimo. São coloridas as janelas, vão linhas ao fim, pinceladas, de toalhas novas, alegres, olhares vesgos, bêbados, não me explico.


Em algum minuto vi sonhos longos, pernas exultantes, como eu, não percebi a rasteira, da vida, ela mesma se engana e, daquela mais colorida, te cospe vida, e dura, dorme, caduca e sonha. Ainda sonho.


 Hoje, quando paro, há tarde, na porta de casa, bem em frente à rua, quando circula as árvores um ouro de ocaso, percebo por onde se foi, diminuta, pouca em verdades, presa em vaidades, e nem soube me deixar, uma caixa a levou, e nem havia.

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