Se sonho


Espera-me a cadeira incômoda. Meto-me a te procurar, mas camuflada, você, ou sou eu a misturar apegos. Chego atrasado e torto, assim, vivo assim, apanho futuros, desassossego, repito desejos. E você, se esquece, se esquece toda, aparenta que dorme, ou falta, o que te parece mais com nada? Sonha sua ausência. Calha respirar e vagar pelo corpo despido, precisa não dizer. Expulsa os disfarces do vívido. Sopra as asneiras. Me perco, preciso te dizer que me perco muito.

− Entro em vergonhas quando me pede nua, nula, meus os exageros fabricados à teimosia, há preço, alheio. Minha, só a solidão da verdade cretina.

Te quero rasgada da mentira. Acomoda-se crua, despede castigos, encantam-te duas paredes em esquina côncava, desmancha o chão, escolhe seu olhar. Se te vestem as metáforas, surpreende, se te poupam os pensamentos, mente. Me atrevi, de todo modo perdido.

− Sem cola, vejo o reboco desistindo. Fico presa neste triângulo, eu, eu e as paredes. O reboco desistindo, quase cai, caem-me olhos. Eu, contida e aflita, o arfar me enche, cismo imagens longas, meu joelho esconde os pés, não sei correr de joelhos, me enjaulo, desbotada, meu ar quase sai, quase volta, meu barulho não escapa, respiro represada, o coração gasta batidas desnecessárias, só me ocupa, eu inflada, palpitante, caduco espantada, meu fôlego se divide com a aflição, brigo com um corpo paralítico, eu frenética, imunda, mudo. Me esquece dormida.

Seus olhos, fuzila o mundo em contramão, sorri a seu canto, conhece o murmúrio das emoções em fila, excitadas em desespero do encontro. Tece frágil o retorno da amplitude escancarada, extinta naquele pequenino instante, foi quando o tropel engasgado tramou seu labirinto, te plantou na esquina pensando asneiras.

− Aquieto-me, vejo nada, não sei. Seria o agarro do escuro tão denso? Parecia vazio até me engolir. Desaponta o reboco, meus pés se foram, os joelhos diluídos. Há sim um muro branco, de todo jeito me cerca, preciso ilustrar a vida que quero, pincéis que viajariam coloridos, engraçados e surdos, no muro, pintaria na vida o muro, não sei pensar de joelhos.

Alisou a cama ainda em reticências, soprou o alívio acordada. As normalidades sussurraram o dia, arrastou o suor do dia, acudiu jamais dormir. Conciliou medidas que permitissem um cochilo picado, assim pequeno, resmungando bocejos. Tramou a revanche de nada. O dia-noite, noite-dia, ela nua de vida, indefesa, absurda, olha paredes, vigia sonhos, destrói.

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