A janela e o beijo perdido


Uma nesga, em minudências de olhares, faz-se de lente por onde contempla aquele labirinto de becos, revelados como seu bocado de ficção. Em um edifício alto, uma janela opaca não abre mais que um palmo, deixa ver o lá fora quando se levanta horizontalmente, formando ângulo crescente com a parede e já contida por uma corrente fina. Aninhado sempre na mesma poltrona puída, brinca e advinha um universo a partir do recorte assistido. Percebe o céu refletido nos tantos passantes. Vê sonhos e procura sentidos onde não há. Os tantos anos de clausura voluntária, de vertigem social não se confundem com censuras em conluio arredio, mas com a tentativa de desilusão dos sentimentos difusos, somos coagidos e nos adjetivam. A janela limita a miragem e amplia o espaço da incompreensão, expande sabências. Então vaga em olhares por cenários e sentidos em desafino.

Um casal entra em seu domínio acanhado, está à direita da fresta. Embora não caminhe juntos, foi assim classificado. Chega a se erguer levemente, estica o pescoço olhando cada vez mais à esquerda de modo estender o tempo. Esse, que mesmo esticado, não os fez mais casal, como formularia o prazer. Ele não. Todo esse tempo, alheio, vendo um mundo poligonal, trouxe uma habilidade inequívoca de assumir possibilidades do contrário, do conto arrevesado do senso de todos. Viu dois, e por uma subjetividade adquirida distante das doutrinas, percebeu a singularidade dos momentos além, aonde não chegam as compreensões enumeradas. Ele também nunca tratou de classificá-las e, assim fazendo, contrair a nomes o que não pertence.

Se pudesse sair daquele papel expectador e assim enxergar além da nesga, talvez percebesse o fio da meada comum, pudesse ver um casal ordinário, caminha tenso e variante entre interesses distintos e feitio desconexo. Veria a pegada apartada, olham-se periodicamente para comprovar a ambiguidade da relação obrigada. Perceberia o horizonte próximo que lhes impõe o olhar míope. Seriam dignos das tristezas levadas. Mas é deste pequeno espaço entre a janela e as paredes que afagou o mundo. É daquela poltrona velha que consegue esticar-se mais e, vendo ainda além do costume, bebe o espaço e não se priva do momento do encontro, quando, cansados da busca titubeante, olham juntos, para si e para frente. As mãos tocam-se antes de sumirem.

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