Raivas do medo


Da missa não sabia um terço. Soubesse não estaria ali parado, encostado na parede de pau a pique mal caiada, parabelo na cinta. A precisão de camuflar nem rondou o pensamento avessado, a malquerença enrustida, razão de nem prosear. A trama engendrada mais das vezes não encontra abrigo no fato. Puxa um fio curto e vira pavio. A vontade de apear da avença, de punir a alma de raiva é mais possante que a boa fé escondida. E nada despromove a toada, só aumenta a meada. É pauta com o cão, porque do desentendido nada se viu. É a mulher saindo de tarde, bem vestida e alegre, só. E aquela zoada no oco do ouvido, de escutar o alarido de dentro, assanha-se nessa belezura de arrastar olhares. À vera não saia da nota um tom, mulher de tenência nas ordens de deus e dos costumes. Ele a mancomunar com o maldito. Era uma vontade de ódio e só aumentava enquanto ia a imaginação na frente. Vai saber de onde vem essa cólera, essa antipatia com o sossego de si.

Daqui, sabendo dos acontecidos, olhando tudo pelo buraco do céu, parece trela de abençoar aflições. É conhecer aquelas artes a zanzar por dentro do coco para atinar como chegam às mortes o que nunca passou de desdita, nunca lamberam os ventos do ruim. O que se põe na obra do tinhoso tira-se da posse do homem. Vira tomado aquilo nem dado. É no fundo do breu, bem atrás dos olhos, no desassossego desta moléstia a definhar alegrias e conchegos, ali mora o novelo. Dentro desta mesma cabeça trançam coleções de fantasmas de todo lugar. Medos de aninhar as querenças, inseguranças herdadas de dor, obsessão de se contar o limite da sofrência aturada, como se assim punisse algum mal. O descontrole do gostar alheio, medo da perda futura, inevitável, mas traja ilusão, dá lugar ao controle urdido do aborto imediato. Esse sujeito tem o condão de sofrer, destoar o juízo e, se motivo não existir, há de encontrar, ou fazer.

Ainda não fez armistício com o entendimento. A cabeça não sabe como parar de pensar. Perambula de lá para cá, roda dez vezes a ideia no ar. Do corpo nem sabe, carrega munição de desviver, segue conselhos fajutos de razoar com delírios. Exagera miragens opacas da mulher em banhos eróticos, em camas de amor. Sente a injustiça aviltante que constrói a vingança. Vive da traição dos sentidos que acatam a dor. Tenta dar ganhame ao cordato, mas aflige o valor. É uma no cravo outra na ferradura. A luz da sala acende fraca e tremeluzente, a porta faz menção de abrir. Ele defronte sem noção do obrar. Aparece alegre a mulher.

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