Voltas e idas


Alterna desalento, como ilustra a indiferença em olhares para os seixos a seus pés, com os rápidos momentos de tristeza apenas, então olha o horizonte, vai até uma montanha próxima, um pico, como é conhecido. Está sentado no chão pedregoso, às margens de um ribeirão. A picada que conheceu na vinda foi ela mesma construída a golpes de seu facão. Não existe volta pela mesma trilha. Não que o tempo tenha esquecido o suor, e mato o facão. O tempo mistura escolhas, o caminho de quem vai nunca se confunde com o regresso. A paisagem de ida abraça a ansiedade do destino, de modo que o retorno parece nova jornada, a paisagem refletida, o encontro esquecido em avessos.

Assim se levanta, bate as mãos na calça suja, toma o facão e resolve continuar. Não decide o destino, mas sabe que o mesmo tempo a esconder o rastro ascende o aleatório, ou os desejos desconhecidos. Então é o suor, outra vez o facão e o mato algo rasteiro a lhe cortar as mãos e o braço. São os esforços, passando-se por sacrifício, ligam tempos e espaços, antecipam sofrimentos que de outra forma não conheceríamos.

Conhece a sensação inesperada e ao mesmo tempo óbvia de que todo caminho é uma volta. Como se nunca tivesse chegado, mas sempre tivesse trilhado o reflexo da picada. Cada parada nesta vereda reveste-se de dúvidas, significa decidir, então vagueia à exaustão. Procura seguir o curso do ribeirão, mas se deixa esquivar quando a toada altera ritmos. Seu futuro já se confunde com lugares e tempos visitados em revoltas. Não importa. Agora já reconhece a sofrência de todas as trilhas.

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