Contas da Vida

Atualizado: Mai 5


Não me espere em começos, me esqueça enfim. Não sou mais que um leito triste, resiste, sim. Vadio. Premeditado apenas o despego, fluido o tempo, desentendido com espaços. De fato, perdi o egoísmo de viver, talvez tenha respirado insistências até resgatar-me a sensação da volta, falo da origem, agora esquecido do vazio e das obrigações inundadas. Quando acordei cercado das mesmas perenidades, contadas ao pé da cama, percebi a obediência cega que me encantou, namorou-me falsa em alegações de felicidade, acho que ouvi dizerem eternidade. Lambuzaram-me as alegrias sempre em passo rápido, passaram. Quando percebi já me tinham em cerca de orações, recusei. Dono de fatalidades, fui assim a me afogar em ilusões, quando me desprendi do fundo e por fim ascendi cheguei a nenhum lugar. Senti o abandono e me nutriu a perda óbvia. Quis encontrar meu refúgio vago, espreitar minha morrência.

Não me ache chato, nem terminei! Me desatarei em tristezas que não te farão mais sentido que a mim. Dou trato à mágoa gêmea. A música nasceu comigo, insistente, soprou o vestígio inútil, inundaram-me os sonhos chamados ao contentamento, ansiedade em fantasia de vida. Que vida? A amostra eram sensações efêmeras, tempo inútil travestido em abalos forjados. Se são dores minhas marcas esqueceram de convidá-las, há um banco desabitado neste bonde, sinto o vento à janela, sopra nulo, o cabelo a atrapalhar a visão. Me espere no ponto, vou descer! E ficamos todos a decorar um tempo desprezível com alegorias falsas quando o canto presente dói. Caminho pisando em minhas flores, sabendo que destruí a volta, vejo-me cabisbaixo, conformado a reconstruir meu jazigo.

Me pergunte sobre a melancolia, explico de vez e te acalma meu pessimismo. Choro das alegrias que inventei às lágrimas vivas. Inverto o olhar. Trato em carícias a angústia, em desvelo interesseiro o grito que me devolverá ao orto. Arremedo a decepção revigorante, maiúscula, a nos esbofetear de realidade. Mora aí a emoção verdadeira, a linha fina nos fisga de volta. Reviro os sentidos e dou nascimento a morte, dou termo à vida.

É quando o sentido ordinário debanda. Quando as mazelas se mostram irritantes e o desejo de não ser alegra. Motiva-me acima de tudo a beleza da ausência. Rejeito a construção de tudo! Se me pergunta assim, não, não me orgulha o que fiz em retórica! Me encantarei quando perceber a desvalia, talvez naquele minúsculo instante antes de nada, quando não poderei me contar. Talvez minha grande ansiedade, calar-me a conquista!

Como fazer as contas? Enumerar as mentiras? Conhecer o saldo, o sentido do tempo? As prestações privativas, surrupiadas, falta não fariam sem que delas tenhamos tenência. Espera mais um pouco, te quero no fim! Posso temer! O que me faz retroceder à estágios prematuros, à imaginação revendo os trajetos, à infelicidade original, não é nada, é esta doença matante. Sofro de vida desde que nasci.

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