Desejo em traquitanas


Quanto em penumbra vi seu corpo, tomado de sombras, você inquieto e suado. Quarto em penumbra, a janela um quadro por onde nos víamos, viam-nos, nossa a minúcia, o fetiche, nosso, nem te perguntei, meu talvez. A janela uma tela, pintura em tela de atacar desejos, de achar prazeres, te disse, somos nossas vontades, as que cantam vilezas, outras não somos, nem importa. Sempre que montamos esse cenário, iluminamos silhuetas, eu e você, sempre percorro sua tensão, você quase não entra na cena, te jogo nessa peça, sempre me percorro a indagar a plateia, perco segundos longos, flerto com um rosto distante, escolho no assalto do olhar, me come um olhar, então me esqueço nele e você me acolhe mudo, eu deixo e finjo, já somos um teatro inacabado, sei que voltará comigo, você imita obrigações, comigo. Sigo o vestígio longo que você esquece em contraluz, quase toco seu desdenho opaco.

Também sua mão, quase sombra, a esticar carícias em contornos, retornos do beijo, nem te beijei. Foram as imagens, ampliam o esboço acanhado, nós, bocas entretidas, maiores de tudo, despegam-se mudas no preto e branco impresso na parede. Mudas e nossas, se quer mesmo saber, nos vejo atrás da janela, se te interessa, nos amamos, te lembra a cortina dançando nosso esconderijo das luzes? Sei que não. Tanto te espantei, te queria nu, eu na plateia, nós dois no palco de flashes, eu despida, desejada. Nada mais que sua, de todos, eu desejo de todos, mas sua, entende logo, vem. A luz curta de entristecer minha ausência, sua, esquecida das luzes. Você não é nada, me dou às fantasias e te uso, te odeio quando fecho minhas cortinas e você some, nem foi, eu sim me seduzi.

Guardo meus brincos, tenho uma gaveta de esconder minhas traquitanas, meus brincos com você, te queria mais que um boneco, te queria guardado para te escolher em minhas noites de festa, você misturado comigo, você não você, você meus enfeites, minhas visões de mim mesma espalhadas em sexo, te quero homem, não te fecho na gaveta de brincadeiras, não te busco traquitana quando não me aguento de tesão. Você é apenas meu par, de vida, parceiro de dia. Somos nós encarcerados em porta-retratos, quantos seriam necessários para nos tornar felizes?

Volto à janela, escondo o porta-retratos com os brincos, na gaveta dos brincos, talvez ainda possa usá-lo. Jogo fora o cenário quando caímos, saímos em nossos aplausos, te faço uma reverência, você já dorme, nem diferença faz sua vista. Se me vê, me entrega flores se me vê, rosas vermelhas, se me trespassa seu olhar, tento correr à frente, jogo em mim as flores. Nem diferença faz sua visita. Te deixo na gaveta acariciando o retrato, um dia, maldito, um dia te uso homem.

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