Felicidade empalhada



Se podia namorar comigo. A frase com pontuação arredondada, irradiou monótona e desarrumada a colher ouvidos de coincidi-la. Peneirei entendimentos, no mesmo chão dos olhares um alvitre se espalhava pisado, um murmúrio amontoado apenas, talvez uma canção rastejante. Cantarolava muito. Quer namorar comigo, redisse baixinho. Voz engolida, olhar pequeno, eu vendendo pedaços, ele pausado, senti saudade de um vento qualquer a espantar rubores. Uma face tímida me encontrou enfim, a minha interrogava para dentro, para fora, para. Não.


Nasci namorando, achei, ele agora me desmascara, me investiga despretensioso, escorre vista, primeiro o sapato, as pernas escondendo saia, camisa de poucas cores, meus olhos desnutridos da espera, ou do desaponto. Nos fitamos a entender contrários, busquei os lados, me contassem histórias, precisei esticar o tempo até encontrar um poeta, leia em verso o significado de nomes, desfigure minha paisagem e me empreste um desejo, só isso te peço, um desejo a alcunhar o nome, me conte em amplitude se há carinho amordaçado em resposta única. Existirá esse poema?


Eu a namorar o mundo, transbordar em tudo, desejando pessoas como um puxado da vida, como um doce, quebra-queixo, puxa-puxa, todos. Paulo, Laura, José, Clara, Lara, ruas. Lara me olhou toda, cortante, forte quando a carícia escorria e pingava. Paulo me mordeu os lábios e me disse coragens, mordia antes do beijo, bobagens antes de nada dizer. Clara sorria, sempre sorria Clara, quando me abraçava por traz a sabia sorrindo. Nunca medi os prazeres em nomes, em tempos, em tipos. Aprendi arrepios com as tentações, então sentia o cheiro, o perfume solto nas ruas chama paixão.


Não namoro consigo, a não ser que imite a vida, passe por perto e me morda Paulo, me penetre Lara, me sorria Clara, seja quase nada e muito com José. Eu tudo não escolho, eu vazia me arreganho, me espalho louca de querenças, busco, sempre busco. Encolho-me no rescaldo de todos os gozos e assim me engulo, me lambo como o doce que puxa, me quero mais. Mas me deitei com ele, isto sim, sexo lido e relido, estudava sua face amarrada em silêncios, esperava divertida o momento do orgasmo, o prazer decorado, delirava o estranho a me ver embaraçada, desviei minha ignorância e me achei minusculamente feliz, o nome.

Para tudo disse sim, que eu poderia guardar estas lembranças, apenas vadia não me queria mais. Me chamou de vadia, mas não se importava, nem eu, pensei. Segui as pegadas, namoro sim, caso até. Eu a desentupir ideias, desvendar o quarto sumário de me espalhar, caber-me, amiudar-me. Depois esqueci, usei sua roupa, sua voz, sua maquiagem de homem, empalhei a felicidade e guardei quieta de não fugir, de não me espantar quando algum futuro descontasse.


Nesse dia, um qualquer, bati em minha porta, a mulher que atendi me viu pequena, catou pedaços cantarolando, rondou suave me desconfiando, assoviava dissimulada me entediando seu cinismo desmanchado. Me disse das lembranças, que secam os vestígios, as tais pegadas de voltar, se quisesse, e eu sem saber foliar meus álbuns, as alegrias condensadas molharam as folhas, senti algum prazer em ver páginas envelhecendo, como se cumprissem um caminho grudadas. Quis me comparar, mesmo emoldurada, quis destampar a vida. Quando tentei me ser antiga me vi pequena, demais para me desvirar impregnada em papel, apalpei sebo e meus dedos não deslizaram a volta, o bolor me contou em conquistas e nem fui toda, me esqueci, me vendi para acabar assim, inadimplente.


E eu achando de namorar o mundo.

[Foto: Kika Martins Ribeiro]

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