• Marcelo Pimenta

Fosse eu

Atualizado: há 6 dias


[improviso i]


Você me disse para excitar as sensações, ler com os olhos fechados a carta borrada em ziguezagues e voltas, para evitar uma resposta já desenhada e meliante, você se enrola muito, pensa, penso em partículas, não acaba nunca, c a n s a t i v o, na hora me cansei de tudo outra vez, melhor é ouvir o cochilo dos sapos, lá fora, sugerem o lamento da noite em outra língua, a minha desamarrada, tenho medo dos sapos que me explodem, não gosto de nada explosivo, até tapo os ouvidos e esqueço, na maca mesmo, quando cheguei pelo corredor, os comentários são vagos e esvaziam, todos gemem silêncios sóbrios em hospitais, ainda bem porque não escuto o fim, sou boa em começos, sempre me disse, pelo visto um hospital partido, me deixa, deitada na cama sem médicos, uma enfermeira, talvez um passante, me olha riscado, como olham os passantes entediados, o desinteresse é monofônico, como um disco velho repetindo um risco, o ritmo marcado, a melancolia vaga, o ponto parado vira risco, como da janela do carro, ou da maca, quando acenamos para nada, a força invisível, a mão se esforça para frente e o vento, talvez traga um remédio, o passante, ele tem um rolo de esparadrapo na bandeja, uma ponta presa e ele se enrola mais a cada passada, talvez traga com um copo de água, um caso soprado da bombinha no braço, sua pressão está ótima, uma piada em cápsula de duas cores, me faça sorrir à janela, passa envolto em mais camadas, mais e volta casulo, me deixa, eu na cama, ou sou eu que me rasgo na janela e deixo só uma ponta, tudo dói quando olho pela janela, dor de esparadrapo não grita, da faca sem dente que escapou e cuspiu sangue em meu dedo, faca não tem vergonha porque não tem boca, senão gritava, você sabe, mas quando me vê acenando pela janela desacelera e vou devagarinho, sem pressão consigo ver, ele tem um sorriso, queria que fosse um sorriso, vejo por aquela ponta solta, ou foi o vento, talvez se ele passasse ao contrário, como o vento em minha mão, seguraria uma ponta em minha mão, aí sim, se desenrolando ele me faria interessada, eu poderia notar o passante aparecendo mais a cada volta invertida, em imagem que não tinha, olha, vai ele de coração, e tem, sem pontos, como cheguei até aqui sem pontos, e veria o início, sem esparadrapo na boca, um som viria de longe – sou eu, na forma do costume, e você, você sempre saberá o começo, quando eu não era passante gostava mais de mim, da minha escrita borrada, e me desculpo sempre por me enrolar em esparadrapos e não ter pontos, gosto especialmente dos finais.


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