• Marcelo Pimenta

Poliamor


[improviso iii]


Faltava uma mensagem e não era a sua, o passo lento por sua rua, eu lenta a esperar a piscada e saber, de carro, acelero e freio, saber se ela chegou, se você vai comigo, te ver minúscula da janela, aceno de espera, quando te conheci foi assim, na janela, você improvisou uma frase e virei. Nem um som de mensagem, meninas cheguei, suas viagens animam as ausências, demais, você passeia pelos dias não vindos, a continuação do acorde, você não pousou. Quando vi sua boca terminando a última sílaba você já tinha a forma de um beijo, de janela, corri, fiquei em ponta de pés e nem cheguei, do aeroporto ela nos avisaria, a ver quem chegava, a buscá-la, vê-la diminuir a saudade enquanto se aproxima do carro, a porta já aberta, pequena, ela a caminhar de mala, a mochila quase suja primeiro, ela sempre joga.

− Gosto de esperar vocês em casa, despir minhas arestas e me caber, você deve ter pousado, não sei quem te busca.

Me convidou e voltei pela varanda, sua porta grande, nos dissemos os nomes do prazer, entrei no carro e fiquei parada, te vi minúscula, a porta te fechou entrando. Quem te deixa, te busca, dúvida de aeroporto, foi em uma sala de embarque, você me atropelou com uma mochila velha, te desejava mais, você sem alças, nada, você nua e a mala, se imagino assim em fila de embarque te perguntei coisa alguma e você sorriu, me imaginando, talvez tenha te enxergado nua em meus olhos. Queria te pegar e iríamos as duas, ela sorriria a surpresa de nos ver, o carro frio, faltava sua mensagem, você desaparece às vezes, minúscula na tela, nem vejo, e ela não pousa, iríamos as duas. Gosto de vocês e a casa, de ficar na varanda, beber vinho, uma tinto, outra branco, a mesinha nos cabe muito juntas, eu tropeçando em dúvida de taça, alternando cores, se um dia bebermos nas mesmas, os dias não vindos. De propósito, te atropelei naquela sala de embarque porque te vi diversa, flor em pedra, me excitei em imagens e colhi. Conseguimos ficar juntas no avião, troca de olhares, sem som, via sua boca em coreografia de convite, sua mochila no colo inseparável, sentamos e senti sua perna na minha, e você teria me encostado despida, de propósito, me cedeu sensações e nem foram, apenas trocamos assuntos, contatos, saímos apegadas, um aceno apagado pela pressa do olhar, desvio arrastado. Iríamos as duas, à sua casa, lembro do primeiro encontro, três à primeira vista, parei o carro bem em frente, na sua janela, você à porta minúscula, sua saia, a escada dava em suas pernas, ela escondida na mesinha, me buscava no espaço exíguo onde cabia o olhar, entre elas, nos vimos no desejo distraído, recíproco, uma mochila caia suja da cadeira.

− Meninas, cheguei, voo atrasado, não sei quem me busca.

Alone Together, Chet Baker intruso, nos ler de novo e escutar, gosto de invadir a casa com uma melancolia disfarçada em sons, metais, baixo acústico, o piano, batidas, tudo simples, quase calado, quase silêncio em sensações melódicas, as bocas sem som, nossa conversa muda, disfarçada de música, trançada em teia de nós mesmas, coração de teia, os dias não vindos. Elas sempre me esperam, esperamos todas, juntas, duas somos nem inteiras, juntas incompletas, agregamos mais vazios, somos a espera, a interseção de nossos momentos é um instante apenas, e demora a mesma fração do segundo, da terceira, o desejo perene de buscar o indecifrável, as emoções sem nome, a sugestão de nada, de tudo.

− Fico ansiosa, você não liga, iríamos as duas, você muda, ela chegou.

Meu celular desligado, em casa rondo nas notas leves, toques mudos, vibram, me volto a vocês, esqueço muito de nada, sem som. O carro incompleto, nós duas nem inteiras, ela joga a mala, a mochila suja, entra em perna, ela inteira e o olhar inerte. Fico ávida, viajo muito e viajo entre elas, elas por mim, vemos entre nossos corpos, nos tocamos por nossas frestas, embaraçamos o tato da pele e deslizamos despidas de cenas aos lugares onde a imaginação resiste, às vezes chegamos, o tempo intercalado, o amor só descrito em poesia e vocês, nos busquem de mim, me joguem em nós, me deixem.

[Alone Together: Chet Baker – The Legendary Riverside Album]

[Foto: Kika Martins Ribeiro]

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