• Marcelo Pimenta

Te tolero apenas



Miserável! Atravessa minha porta, te parece nenhuma, encontra-me quieta, ouvinte, sou sua paisagem, a mim pareço acuada, desvendo nada, nem você enxergo, espero que sim, que se importe, consigo, não se atreva em mim, nada te darei a parte perguntas tolas e silêncios atravessados. Te vejo sempre em metades. Não sou, eu mesma, menos que duas. Mas é você a passear palavras por esta sala aflita. Olho uma fenda iluminada, um inseto baila arisco, tonto, sem pouso, eu também não te ouso, vejo sua boca ondulante, nada me importa. Fora você. Um sofá me olha quando não te quero. Expulso seu último verbo. O que te leva daqui? Chega.


Aliso a solidão, não me perturbam seus movimentos, seu levantar tedioso, sua face lenta espera um aceno, uma sacudidela de cabeça, nem noto. Você não me quer aqui, nunca quis, sua voz me corta. De verdade nem te reconheci, não te toquei, você não me estendeu a mão nas cerimônias, ou nem vi, ausente na impaciência de testemunhar o perdido, eu perdida. Desgraçado, me conta logo suas vilezas, suas lonjuras, seus engodos, a ver se me prendem e nos troco. Cala. Vamos acabar com isto. Quando seu pensamento virar som, cala e me sufoca. Ainda bem que não te incomodam seus resmungos. Guarda.


Te vi um dia, na rua, vi seu belo em silêncios, fica assim. Não volta que me pulo, chego em você sem me respirar, me cabulo, é isto o arremedo na sala, trombo no espelho quebrado que só a ti reflete. Você espalhado em meus pedaços, você estragado e sem cola, eu que não me cato, você insiste, aparece o vulto varrendo, reunindo cacos ainda em quebraria, como se assim fingisse, cingisse um entendimento, qualquer, mas não sou eu, não é você. Olá, é você que vence a distância, sorri e distancia, mal vejo seu vulto quando me atinge a mágoa, culpa-me a tramoia, vontade de voltar e te ver, te enxergar lá de mim, me indagar lá de você, lastimo a reverência efêmera também a brincar com despedidas. Olá, eu a contorcer olhares na calçada.


Você sabe, não, claro que não, mas se uma tarde nos surpreendesse em alívios, imagino que um pequeno claro de sol te inaugurasse a face, você fecharia um olho incomodado e me veria de outro, me concentraria na única trilha de luz, estreita, até tomar toda jornada em foco e então me caberia em sua beleza longa, sedutora, você maquiada de afetos me bajularia a nuca em dedos tênues, antes das bocas se quererem molhadas. Não, nem assim nos engole a pieguice, nenhum entardecer de poesias nos aliviaria o trato analítico, nos veria mesmo no conluio gasto, te estapearia a ver se cala, não cora sua face e ignora, o enfado nos tomaria como fazem os líquidos, rápidos, sórdidos. Eu poderia me apodrecer de vez, te abraçar penitente, talvez seguíssemos como um filme fajuto, o sol pouparia egoísmo e nos iluminaria a fuga, diminuídos a um traço trêmulo, nada te diria a dar gosto ao último olhar, talvez me arrependesse.

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