Ruas Azuis


A mulher de cabelo azul morava em porta de rua, antecipava a ladeira íngreme de chegar à praça. Nas giranças juvenis, época das paixões à toa, mantive olhar curioso, a porta sempre aberta expulsava o colorido da velhice. Avelhar significava trocar o cabelo em tons de céu, conversar com móveis, cristais e o tricotar em murmúrios de fabricar rezas. E me contou o pai, em outras andanças, que havia o muro de arrimo naquele rumo. O muro amparava a rua, mantinha as cores no lugar. Sem o arrimo não se assentariam as paredes sob tetos e viria tudo abaixo. Todas as casas em cascalhos, janelas fechadas, e sumiria toda a rua em pé de moleque, levando em lamas o cabelo cuidado, o terço de suspiros em cada conta. A mulher se contentava com o novelo e sumiria sozinha. A porta agachada apagaria a miragem.

O passeio era segredo insistente, dali a pouco se atrevia o flerte em cochichos preguiçosos de ouvidos. O arquejo tinha nome de mulher, agora outra, em varanda de ver de cima, de entortar cabeça e evitar soslaios. O caminho do olhar encontrava primeiro as pernas, logo se escondiam a oferecer sorriso. Enchia o receio de ânimo, o andar atolado em inquietudes de não desagarrarem as palavras. E ainda o muro a cair e engolir trilhas, a tragar a casa, devorar a mulher engasgada em azul. Fantasiei a tirania a desmontar o circo colorido em tintas, roubar a miragem do futuro, destruir a ponte de ver pernas em varandas. E era a varanda dela, que nunca me emprestou ouvidos, porque fiquei tão encharcado de desejos e engoli o não dito. Esperei uma ponta de coragem, nunca me viu, falaria em sussurros os desejos dessabidos, até tornarem-me frágeis, contados sem resposta, à espera. Eu ainda lá a engasgar caprichos, tramando a ruína na fantasias das pedras.

O amor se conta em tempos diferentes do pensamento. Era ela minha, já tinha sua boca, namorava as vontades de tecer um embrulho de carícias e sentia todo seu corpo em prazeres desabituados de contar minúcias, entrelaçados de querer em todos os cantos, de sentir os cheiros a atiçar esquecimentos. Quando abeirasse o tempo da dúvida o azul me lembraria. Buscaria fôlego nos carinhos ficantes, costas nuas e mãos em manobras de conchego. E teria sempre o recordo de azuis, fingindo ela que não chega, nem chego eu em teimosias. Desatino, desato o coração, bate em ousadias, esquece da rua, não cai em muros e entra onde escondi meus lampejos, bem atrás do namoro dos sonhos.

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