Desencantos Ausentes


Levanto-me de um sofá inexistente e te encontro. Toco distante nas memórias de metades vendadas. Lembra quando escondemos o mesmo ninho? Quando resolvemos partir para o vazio de nosso palco? Chegamos a construir ilusões, razões perdidas, encontros vertidos em distrações. Pareceram aventuras sinceras. Em mim construíram este canto de risos, menos que prantos. Acendo uma luz entristecida, leio o que nunca foi escrito. A casa é cheia de flagrantes, acomodam-se tolos, e quando olho da porta pela última vez ainda te vejo inquieta, dançando uma música só sua. Talvez não houvesse espaços calados para te tomar em meus braços, girar em seu mundo. Mas agora o vazio não te trouxe de volta, a sala não nos vê rodando. Teria me misturado em doçuras não fosse a mania das correntezas sem margens, o brilhar das marolas de enfeitiçar os tontos, tantos.

O fechar mostra a cena oblíqua que diminui. Resisto em barulhos internos. O maneio é lento, o tempo necessário para tentar esquecer, como se pudesse a pétala seca se desinteressar da pequena gota. Tento desconectar cenas antigas da paisagem perdida no caminho. Olho nada e sinto a respiração, emudece a mente, o coração engana sem ritmo, escuto as conversas do tempo, tentam me envolver em sentidos e congelam o movimento absurdo. Reteso. Não reconheci momentos. Segundos longos quando ainda espero te ver passando, acordado do futuro me achar chegando, você ansiosa do abraço e dos contos da tarde. Tropeçávamos em amor amuado.

Vejo-me em canto chorado, na sala morta, encolhido como um bicho de dores, alagado de lágrimas que nunca se foram. Dali me percebo de pé segurando uma maçaneta pesada, não escolho pouso de olhares. Finjo em certezas de páginas passadas, me sei em dúvidas de esquecer. Vivo na beirada do medo. Sinto uma vontade enorme de me abraçar, de encher de carinhos aquele homem fugitivo, de segurar forte a mão de dor daquele que emudece quieto em pranto desfigurado.

Tramo a essência em desuso de me achar em um momento incontado. Desconhecer-me nos pensamentos de todos, nas versões da vida que mudo e reconto. Tenho sanhas de me espiar em soslaios, saber em segredos quem é aquele ficante, quais esconderijos procura quem vai, quem fomos, as emoções abafadas. Entristeço-me de passados ausentes, te espero brincante e espiro os destroços da verdade. Nada alivia. Ainda me olho em harmonias descalças. Mais uma vez me tranco por dentro e saio em firmezas, o lamento engolido transborda o oco, a alegria dispersa acha lugares, a partida me perde deles. Segue em folclore seu rumo de carinhos, pisa cativante suas esteiras a vogar utopias, o ruminar de silêncios inquietos. Devolve a ternura riscada, esquece em mim a face da lágrima. Quando a última gota se for, ali desenharei meu jardim.

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