Escolhas de mentir


Flagro-me devorando tristezas. A boca destempera o tempo, a língua lamenta seus sabores. Gostar as dores é uma tarefa árdua aos meliantes da felicidade, lambedores de alegria, como nós a fingir. Degustar é ficar farto delas, cheio dos entendimentos negados, das caras chorosas a se consolar obrigadas. Esvaziar o coração de bobagens e senti-lo oco, como vácuo que suga, largo e com vontades de encolher passatempos. Quero sentir cada uma, violentar seus encantos, discernir cada pranto, conhecer cada lágrima. Então estarei pronto para qualquer investida furtiva, estarei ávido de qualquer melancolia perdida. Conhecerei seus cantos e viajarei atolado no ânimo, encontrarei meus receios com escudos festivos e descobrirei que sem eles rumino apenas a vida em planícies. Prefiro as tempestades passantes, a cambulhada de gotas e lágrimas confundindo-se em meu rosto. Cuspo água.

Acordo em desassossego escondido. Pondero razões impertinentes, reflito este mundaréu esgotado de dúvidas e esperanças em receio de fuga. Me reparo em esperas perenes pelos gostos de depois da dor. Vejo o mistério a soletrar fantasias, me diz autoritário qual máscara usar. São as mesmas que tenho. Não há carências a trocar. Não há o momento preciso de trapacear o vício a mudar. Não existe o vento tonto trazendo cores de vida, o acordo de separar a tristura. Insisto em atalhos titubeantes entre o riso e o lamento. Não há.

Corro para entender a meu gozo esta intriga manhosa me impondo o ser dessabido. Vou descobrindo os cheiros de tudo e acrescentando a essência. Me arrombo a mastigar sofrimentos, faz parte da mesma sedução do pular cordas faceiro, inunda corações do sentido. Desisto do engodo. Junto tudo sem tempo em uma cova profunda, só minha. Pulo em tantas sensações e me lambuzo de todas, me esfrego de terras e lamas, saboreio ossos e flores, me decifro neste breu construído da imaginação decorada. Afogo em suicídio teimoso um lote de mim ofendido, o que driblo, o que perdi no caminho, o onde que vou.

Quero aprender a carícia da dor inseparável, encenar o triste e o alegre como vítimas da mesma quadrilha de inventar distrações e manejar sentimentos, são meus. Então sairei do buraco imundo e contarei as mentiras do lodo, espalharei o reparo do indivisível, o rescaldo de choros, o prefácio de gargalhadas impacientes, socos e carícias, a inspiração de conter, a explosão mantida no limite preciso, no pequeno segundo antes da partilha, quando brincamos de pertencer à emoção absurda, única.

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