Gozos roubados


De pé, dois corpos metade entrelaçados. Ele a envolve à cintura, o olhar encolhido, minudências da sedução. Ereta, disfarça alguma dúvida, cismas do não vir, resvala na tensão arredia. É ele que desapruma para trás de modo desvendá-la de longe. Repara seus gestos contidos, seu sorriso lento, a vontade engolida. Acaricia o contorno da face, a borda dos ombros. Suspeita do faro que enrola e atiça. Agora já dançam. Um bailado suave, conchega expectativas, ele inclinado. As sombras dos corpos na parede mostram intimidade solteira, são um só corpo a depender da escolha, talvez nomeando momentos adiante que vão conhecer. O enigma da música não escuto, o balé nunca visto, os reflexos animam a cena, coreografam o erótico, o linóleo encharcado.

Prosa imaginária de uma estátua de corpos, metal lapidado, janelas acima. Iluminada de fontes incertas, desapuram o juízo, confundem a ilusão. Poderiam ser nada mais do que uma planta de caule retorcido, folhas e flores. Cortejei o casal, a harmonia imprecisa, o gostar hipotético. De cá, alisando a fumaça, eu de lembranças, a tecer a história, a reler meu discurso, a mesma emoção que a forma sussurra, as sombras gritam. O primeiro encontro, a taça de vinho, a luz sorrateira. O dessaber dos caminhos, as querenças alegram quando se misturam e afinam, as curiosidades do faz de conta. São os começos das jornadas sem épocas, dos corpos despidos, das lamúrias que podem e afligem.

Desligo meu tempo e peregrino sem eles. Eu ali, antes de flertar com a melancolia incrustada. Eu debochado no parapeito gelado, me arrasta ao contrário. Sinto o instinto a tragar, o cuidado acaricia, os olhares de malmequer. São mímicas de gozo. Cortinas tremulam, camas se agitam, garrafas sem rolhas. Evaporo em prazeres alheios, escorrego em banho de mimos. Torço pela estátua de vida na noite de inverno. Vivo do inanimado que abanam, me enleio de imagens que animo. Cessa a luz. Poderiam ser flores.

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