Jardineiro de barcos e grama


Demerval, assim existia. Dono do embornal de cantarolar fantasias, inventar verdades. Quase criança, fantasiada adulto nas durezas de vida, nas obrigações do terreiro. Contava proezas de folhas e gramas. E era tanta a ciência do conto que hoje não sei se era ele mesmo uma história, mentida a se fazer gente. E éramos miúdos demais para saber das coisas de adultos, para viver desta separação irremediável entre o escondido e a realidade das emoções. Ele mesmo as construía com pedaços de tudo, num passe de palavras mágicas. Sentávamos à frente da casa. Ali, em uma passarela de cimento, os pés na grama, de modo ficar molhado nas águas dos mares, atravessava folhas com pauzinhos, velas de soprar o vento. Cada fiapo de mato uma onda gigante a vencer. Cada folha uma caravela. Nós lá dentro. Tripulação ociosa e amedrontada. O almirante, artífice de tudo, nos levava seguros. Nos imputava os pavores dos abismos profundos, de tubarões e piratas, depois nos fazia heróis de nós mesmos.

Na lembrança, a ansiedade constante, os barulhos de ondas batendo nas portas, a força dos ventos a soprar meus panos e minha alegria espalhada. Navegávamos. Ousado, tinha em si as manobras de sonhar alegrias, de abandonar o mundo de concretos e nos afundar em oceanos de aventuras reais. Não eram resenhas de contos. Dessas alguém haveria de saber o fecho. Seus caminhos eram venturosos, nem ele saberia reconhecer o porto de chegada. Nunca respondeu aos apelos do medo, quando apavorados com o enredo, aflitos com a sobrevivência, não aguentávamos e perguntávamos ao dono dos mares, e agora, Demerval? Vai escutando, respondia sereno, molhado de todas as certezas.

Fugiram as lembranças covardes. A memória vacila quando indago desambicioso das vezes que zarpamos daquele porto, quantos navios construímos, quantas ondas atropelamos soberanos. A vida me perdeu do almirante, ou eu dela me fiz distante, grosseiro nas diferenças inexistentes entre irmãos de terra e mar. Queria tê-lo nos momentos de medo, nas solidões de gente grande. Só ele saberia me guiar calmo nestas águas difíceis de singrar, imprecisas, sem as velas, sem o casco de folha, sem o dono do mar. Ainda deve embarcar alegria nas frotas de comandar, pelas gramas rasteiras que soube avivar, pelas imaginações de criança que transformou em lugar. Se cuida, almirante, os barcos não afundaram. Eu, velho de ser, persigo perigos, vejo piratas, minha folha afundando. É quando uma voz infantil me encontra imaturo e, no ouvido de dentro, vou te escutando.

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