Luzes cambiantes


A luz que traz também leva imagens e imaginações. O escuro iluminava-se por vela com objetivo romântico, não fosse conteúdo daquele castiçal, insiste e mostra variações que não sabemos declarar. A mulher, e o que se vê é metade de um rosto, encima um ombro nu. A mão que guarda atrás da orelha uma mecha em atrapalho e aparece instantes depois acariciando uma face a contemplar. Como fotos, não guardam as sequências e mostram cenas a se perder na desordem.

O castiçal fica no canto da mesa, de modo não atrapalhar o ir e vir de mãos, levam das travessas aos pratos, das garrafas às taças. Os pés tocam-se abaixo, ora buscando conforto, ora em gracejos que complementam a cena, o castiçal ilumina. No canto. É um objeto de vidro com alguma opacidade. Um sólido amorfo. Quase uma esfera, se as paredes externas não lhe conferissem a aparência de um papel que se embola antes de jogar no lixo. A forma arredondada vê-se através de planos irregulares, sem simetria. Ao centro um cilindro guarda internamente a vela, de modo que a luz propaga em reflexos e refrações através daquela superfície intransigente.

A chama oscila aos desmandos dos ventos ligeiros. O castiçal ilumina autônomo. Tem desejos, acabam construindo os momentos e lugares que a luz consente. Ali, os lampejos fortuitos, os goles de vinho, os pés sob a mesa que a luz não vê, tramam um ambiente que confunde a sequência do romance, conspira ao mostrar cenas rápidas, desconexas e discretas, iludem a realidade.

Na próxima já não a olha a ajeitar o cabelo. Já não estão ali os trecos da gastronomia. Sobre a mesa, sentada, o olhar nu. Quando a luz permite, as bocas aparecem no mesmo plano. Tocam-se e desaparecem. Tira-lhe o cabelo do rosto. Uma taça de vinho, duas. É ela quem elogia a comida, sorri prudente. De pé entre suas pernas fortes, tenso. Agora está sentado a levar o garfo à boca. Bebe, bebem. De pé, sentados. Olha-a enquanto come, enquanto a tem nos braços. Beija-a em desejo, enquanto ela fala algo que não houve. Despe o outro ombro com suavidade e as mãos deslizam pelas costas. Responde e oferece mais vinho. Agora está quase nua. Serve mais um pouco de risoto, ela aceita faminta. Afasta-se. Tira-lhe a calça. Está completamente nua sentada à ponta da mesa. Admira a delicadeza dos gestos ao beber o vinho. Vira-a em movimento brusco que derruba o castiçal, apagando a vela e com ela o momento que nem sabe onde existiu.

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