Ventos de abismo


Manhã ceda ligeira, encontra o corre do dia. Acorda de sonhos falantes. Sozinha. Manipula silêncios do que houve ser, cenas repetidas de ritos antigos. Acode o corpo no acordo esticado de cama preguiçosa. Os deveres da manhã tomam rotinas e aprisionam quem não tem nada a contar, nenhum sonho a ouvir. Quem se mete em solidões e não põe reparo vive com as desculpas arteiras que servem a ninguém e repetem a desordem. Imitam liberdades meliantes e escondem a melancolia do desvelo perdido, das mãos desdadas na trilha. Assim remata as ganâncias do corpo, os asseios da casa. Levanta o olhar ofegante, segundos de luz se apagam. Mira a porta de entrar e procura a de sair, como, se existindo, pudesse sempre levá-la ao adiante, sem percorrer o sabido. Do umbral, olha para dentro cautelosa, adivinhando sempre o imexido, os enfeites eleitos, sem carência de ornar. Tranca uma vez mais, alheada com a cerca do mesmo mudar.

Bate pernas por caminhos preditos, por buracos de rua, passeios sem chão. Conta pedras e flores, corre sedenta de bicas, desconta a rotina em amores. Desliza graciosa pelas imagens de temperar seus olhos. Acolhe a cidade esperada, toma a seu gosto a miragem querida. Inquieta no breu das quimeras, encontra as mentes levadas a forjar descabidas os ladrões de utopias. Leva o desatino da escolha desfeita, da existência soprada por ventos malparados. Segue de passos ligeiros, briga com todo lugar. Junto com o sol, que começa esquentar, já aflige a correria assistida, razão do chegar sem chegar, como a busca do vulto insosso, já cansado de ser, mas não conta assustar. Venta o tempo. O olhar moído já encontra um lusco-fusco usado. A noite do dia atropela no rastro de voltar.

Há vida nesta cerca de abismo, envolve-a sem esconder o luar. Há feridas, a ver nos frutos maduros o mistério amorar. Demora no enredo de conta, na cisma de si, na solidão indômita que julga amansar. Enrola-se nas diversões coletivas e esquece atrás. Carrega emoções de pelejas internas, estonteantes, potentes, como ondas maiúsculas que não sabem quebrar. A liberdade do medo confunde-se matreira com o medo de não ser. O escravo parido procura trilhos difíceis, carrega o exílio do ninho sem poder compartir. O corpo dentro se tranca fora. Torce, na noite de lençóis e canseiras, pela porta de entrada, por onde ninguém chegará.

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