Mulher rasgada


A janela vê um muro. Eu vejo frestas por onde entram as luzes de fazer as ruas. Entram olhares alheios, entra quem quero, mas não. Cheiro lá fora e te vejo distante. Há um fugir de nada e nos une. A janela é pequena para ver tanto, me ver inteira, meus sonhos de correr riscos, de pular de alegrias, de mancar nos tropeços. Não sei voltar o caminho riscado, me espera o passado impune, amedrontado pelas mesmas ruas a acudir minha andança sem jeito. Meu lugar esconde-se nestas cercas estreitas, lamentam me julgar diversa, percebem a armadilha sinistra a mostrar um fim que não vejo, nem quero. Estranha às entranhas perdidas, caminho assim mesmo e descubro. Me espreito de dentro, brilho equilibrando em meus abismos. Rasgo.

Sou a mulher imprecisa nesta alegoria de contos, trago os limites da aflição exigida. Desejada, desejo. Faminta dos sonhos da cama, persigo alforrias, me espremo pelas frestas abertas onde consigo me transformar, lidar com os sentidos dos lugares onde já estive prisioneira, brincar com os movimentos do dia, sentir os abusos da noite, as vontades de amar. Finjo gostar da alegria contida, trato dos mistérios de descontar.

Tudo me vê, mas não vejo. Tento rasgar a fantasia do corpo, bela, sensual. Quero o vestido da vida, a explosão que foge, meu canto de cór. Quero meus rumos longínquos e meu passo de dores e fadigas. Trago todas as emoções de viver mulher, não me entrego às encruzilhadas, compartilho dúvidas e sigo só nas escolhas. Se assim for, seguirei só. Levo todas as emoções do encontro possível, do amor intrigante e livre que não aprendi. A liberdade avessada preciso esquecer. Me enfureço na jaula de encantos, aturo altiva a incompreensão das jornadas prontas. Sufoco as angústias, quero correr sem fôlego, enjoar nas alturas, pasmar-me do caminho escondido onde acharei meu lugar.

Então te terei efusiva, te chamarei para um canto de dois, para a cama distante, onde aprenderemos a dança encantadora do amor desigual, expulsa o sufoco e acalenta a ternura de corpos nus, de carícias efêmeras que a noite constrói, da vivência lúdica que o dia esconde e saberemos tramar. Se vier comigo, venha de graça, trilha-me olhando, me querendo à distância precisa, me tendo em paixão escancarada, em frente à janela sem muro, onde plantei tanto gostar.

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