Ouviu estrelas


Quero uma arma, vou me matar! O tom mistura súplica e desespero de congelar as prudências de dentro. Ao ouvi-lo não me ocorria outra agonia mas tentar entendê-lo, entrar naquela mente aflita onde habitariam os conflitos chamuscados da trilha atrevida. Perto dos 90 anos o que restou, além da carcaça desgastada, foi a urgência da fuga. A sensação da inutilidade do dia, a dúvida da próxima noite. A iminência da morte traz um desassossego constante. A violência do descontrole sobre o momento extremo cresce até lugares onde a razão não cobiça. Abomina o medo, mas se lambuza de pânicos, não explicam o que apeteceu. A velhice não logra avaliar o caminho para inquirir quem passou. Trama o destrato do corpo, as manchas na mente, a revanche da dúvida.

Trançando entre tempos, ainda consegue visitar o passado. Repete perdido vivências marcadas, disfarces de épocas. Vestido de poesias, ensaiado em garbos, galante em rodas, surdo dos ecos. Vê-se jovem. Quando os parnasianos tomam o esquecimento, foge para os momentos líricos, rouba lembranças, vou cúmplice. Mete-se em Bilacs, ouve estrelas, povoa-se de sonhos solitários, tropeça em despedidas. São emoções que se escondem com a mesma agilidade da procura. Então via o homem desfeito da idade, consumindo prazeres íntimos, talvez o significado restante da vida a resumir seus medos do porvir. Para mim esses tormentos tênues mostraram as entranhas do desvendo, poderiam explicar as agonias do que um dia serei.

O desatino de avelhar consome primeiro nossos desprezos, depois nos deixa nus à procura do que prestou. Não consegue mais fingir, toma alegrias furtivas e guarda, tenta substituir a infelicidade presa em lugares travessos, não encontra. O dia perde o sentido e o olhar agudo mostra apenas restos penumbrando razões, desvanecem os desejos. Não há mais tempo para disfarces. Há que fantasiar os pequenos momentos e travesti-los da beleza nocauteada. São instantes de ternura e desvelo, desconhece efêmeros, mostram o homem em seus momentos verídicos e inúteis. Chega a noite e outra vez o encontro estridente com suas angústias. Então se entrega ao desamparo do escuro. Treme solitário como feto encolhido na cama crua, como se esperasse o nascimento da morte.

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