Seu cabelo de agarrar desejos


Espio o escuro. Prefiro a noite em negrume, inventa formas e só conta a meus olhos, rege minhas mãos, te encontram espalhada. Você ofegante, ciente de mim, talvez. Me espera em sonho desperto, muda de querenças, nua. Vira-se dissimulada, o lençol renitente não acompanha. Você já é a metade do talhe desabrigado, da silhueta penumbrosa, do quadril contido, as costas suaves, o ombro escondido. Seu cabelo entretém travesseiros ávidos de conchegar, espalham-se mais do que você quer, menos do que preciso para te ter rebelde. Então provoco ao contrário. Afago seus cachos, deslizo seu corpo em penugem, você eriça em intensidades contidas, geme domada de sono. Adivinho inteira, te encontro em qualquer cama, acho seus pés. Beijo. Uma boca longa consegue suas pernas que calafriam. Você também. Sua bunda se curva quando atina encolher, afogada em excitação aflita, caricio o perfil. Repito labirintos de línguas enquanto conduzo seu senso em ilusão. Sua respiração não te contém. Você em silêncio ardiloso queima inconsciente, fantasia em tudo por dentro e rebenta em tesão.

Promete-se despida de tudo. Deitada de costas, as pernas semiabertas e levemente dobradas. Estou ajoelhado, você vestida de mim. Me inclino em carícias macias até encontrar sua boca. Demoro no namoro de lábios, mordo e você grita quase muda, engole. Encontro o cabelo que vive e te trama linda, bagunçado, feroz. Atravesso com dedos selvagens e puxo para trás. Você sente o impulso. Esboça expressão de incômodo e delírio. A sensação de abandonar o corpo e me invadir vira movimento melódico, deixa exposto o pescoço e apruma os seios, pequenos, gostosos. Abuso de línguas e beijos. Mordo de leve, nem tanto. Você arreganhada retesa ansiosa, exige o gozo abundante. Agarro ainda mais o cabelo para te ter violento, amarrada das cordas do prazer intenso que imobilizam, até dialogar com a comoção do orgasmo. Te solto em desmaio suave. Toco sua boca fria e ainda inerte. Acalento em mim. Não sei se dormi.

Nada falamos, nem foi o caso. Tem uma parte de você que me mora. Te tenho sempre à mão de amar, à distância de acalmar qualquer dor, de nunca esquecer seu cheiro de manhã, de nos acudir como for. Dia ralo, saio à socapa. Deslizo nu pelo quarto de ter, te entendo da vida. Você acorda de sonhos e preguiças, prazeres de faz de conta, cabelos de arrepiar mentiras e contos.

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